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sexta-feira, 8 de abril de 2016

188 Anos da Chegada da Máquina a Vapor a Monlevade


Nas fotos, o Martelo/Pilão de Monlevade, movido a vapor, e sua respectiva caldeira. 

 Hoje, 08/04/2016, completam 188 anos da chegada da Máquina a Vapor a Monlevade. O monlevadense nunca ouviu falar sobre ela, mas trata-se da primeira a ser empregada em método industrial no Brasil. Antes da de Monlevade, houve emprego de máquina a vapor na Bahia, a partir 1810. No entanto, era utilizada como força motriz de engenhos de cana-de-açucar, isto é, de uma manufatura. A primeira empregada em método industrial, certamente, é a de Monlevade, 17 anos antes do Barão de Mauá lançar-se como o pai da Indústria Brasileira.  Aliás, em momento muito posterior, depois da morte de Monlevade, o próprio Barão de Mauá adquiriria sua Fabrica de Ferro, através da Companhia de Forja e Estaleiros
Trata-se se um Martelo-Vapor, com malho cambiável de até 1.200 quilos, chegado à Fábrica de Ferro de Monlevade, junto de outros equipamentos, em 8 de abril de 1828, através de intrépida navegação pelos rios Doce e Piracicaba, conforme noticiado na edição do periódico ouropretano "O Universal" de 19 de abril do mesmo ano .
Após a instalação da máquina a vapor, a Fábrica de Ferro de Monlevade passou a produzir também os trituradores para o processamento do minério de quartzo aurífero nas Companhias Inglesas que exploravam as Minas de Ouro do Congo Soco, Morro Velho, Pari, além de outras. Somente em Morro Velho, funcionavam, dia e noite, 36 pilões de 80 quilos de peso, cada um, que nesse trabalho contínuo tinham de ser substituídos a cada 90 dias, situação que não apenas impunha escala industrial à Fábrica de Monlevade, como também representava a indústria pesada da época. Além de uma variada gama de artefatos e ferramentas de ferro, alguns bastante elaborados como se tem relato de um de seus escravos que  fez dois relógios de parede e uma máquina de costura, Monevade também produzia bens de capital, o que atesta o emprego industrial de sua Máquina a Vapor.    
Sem precedentes na história de Minas Gerais e chefiada por Lourenço Aquiles Lenoir, a Expedição Monlevade durou cerca de sete meses, percorrendo mais 1.100 quilômetros, desde o Rio de Janeiro até João Monlevade e foi uma verdadeira operação de guerra, que, com auxílio decisivo dos índios Botocudos, mobilizou  4 divisões militares do Rio Doce, comandadas por outro ilustre francês, Guido Thomaz Marlièri.

"Botocudos em Marcha", Debret.

Ao contrário do que se conta, a submissão da gente indígena que habitava os chamados “impenetráveis sertões do Rio Doce” não foi feita, facilmente, à troca de espelhos ou bugigangas. Na região vivia um índio guerreiro, antropófago, extremamente, temido, da etnia Krenak, chamado pelo de Botocudo por usar a botoca que lhes transfixava o beiço e nas orelhas.  Em 1808, havia-se declarado “guerra justa” aos Botocutos que viviam da abundância da pesca, caça e coleta de alimentos, proporcionadas pelo rio e pelas densas e pródigas florestas de Mata Atlântica que se estendiam por toda sua bacia. Uma das missões de Marlièri era "pacificar" os Botocudos, o que impunha a manutenção de consideráveis e contingentes militares ao longo de todo o trajeto do Rio Doce, que, por isso, já se encontrava seccionado em circunscrições entre várias divisões de guerra.
As mais de 7 toneladas de equipamento, incluindo a máquina a vapor, haviam sido importadas da Inglaterra, tendo chegado ao Rio de Janeiro, em meados do ano de 1827, num navio de carreira. Na alfândega do Rio, foram transferidas para um barco menor, de dois mastros, chamado de Sumaca, e, a temer a ação de Piratas, deixaram a Baía de Guanabara, com atraso, rumo ao litoral-norte do Espírito Santo, comboiadas  por duas pequenas embarcações de guerra, vencendo a foz do Rio do Doce, até Linhares. Lá, a carga foi dividida entre 12 canoas militares da 6ª Divisão Militar do Rio Doce (DMRD), que, devidamente, abastecidas de víveres e guarnecidas dos respectivos soldados, canoeiros e muitos índios Botocudos para auxiliarem nas baldeações nas cachoeiras e corredeiras que se seguiriam, deram continuidade à longa e inédita viagem rio acima.
Na Cachoeira de Baguari, próxima de onde se localiza, hoje, a cidade de Governador Valadares, as cargas foram baldeadas para as canoas da 1ª DMRD e seguiram até a Cachoeira Escura (Belo Oriente/MG), de onde foram, novamente, baldeadas, desta vez para as canoas das  2ª e 4ª DMRD, sempre com a ajuda de dezenas de índios, e seguiram para a localidade de São Miguel do Piracicaba, onde Monlevade as esperava, ansiosamente, para equipar sua Fábrica de Ferro que, em pouco tempo, se tornaria a mais equipada e importante do Brasil Imperial.


Do porto do Rio de Janeiro a João Monlevade/MG, de 18 de setembro de 1827 a 8 de abril de 1828, totalizando 7 meses de viagem , 1.100 quilômetros percorridos, sendo 600 por cabotagem entre o Rio de Janeiro e Regência/ES e 500 através de navegação pelos rios Doce e Piracicaba acima, abrangendo 3 estados brasileiros e transportando 7.500 quilos de carga.
Hoje, 188 anos depois da verdadeira epopeia que foi introduzir tão pesado e relevante maquinário em Minas Gerais, os equipamentos trazidos pela Expedição Monlevade, inclusive o Martelo-Vapor de 1.200 quilos, sua caldeira, etc, encontram-se expostos ao tempo, no Museu fechado à visitação, mantido pela Arcelormittal no Solar Monlevade, na cidade de João Monlevade.