
Jean
Antoine Félix Dissandes de Monlevade (imagem acima) nasceu na região de Guerret, na França, no
ano de 1789. Oriundo de uma família nobre, concluiu o curso de Engenharia de Minas
na Escola Politécnica de Paris, em 1812. A formação de Monlevade não se
limitava, todavia, à engenharia de minas, tendo profundos conhecimentos nas
áreas de literatura, filosofia, ciências naturais, mineralogia, geologia e
metalurgia. Graças a seu talento, foi incorporado ao Corpo de Engenheiros
Militares da França, onde dominou as técnicas de análise química de minerais,
as técnicas metódicas de obtenção do ferro pelo processo catalão e por meio de
alto-forno, as técnicas de obtenção do carvão vegetal pelo sistema de medas, as
técnicas refinadas de forja, solda, laminação, torneamento e moldagem do ferro,
além das de construção civil e mecânica, topografia, etc, etc. Em 1817, Monlevade conseguiu uma permissão do
seu superior para efetuar a viagem ao Brasil, participando de uma comissão do
governo francês, incumbida de estudar os recursos minerais de Minas Gerais,
naquela onda de naturalistas estrangeiros que se seguiu à transferência da
Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro. Monlevade chegou ao Brasil em 14 de maio de
1817. Já em Minas Gerais, João Monlevade visitou minas e jazidas de várias
cidades e vilas mineiras, como as de São João del Rei, Tiradentes, Congonhas,
Ouro Branco, Ouro Preto, Mariana, Sabará, Curral del Rei, Caeté, Santa Bárbara,
Catas Altas, Barão de Cocais, São Gonçalo, São Miguel do Piracicaba, Itabira,
Serro, Antônio Dias, etc, a percorrer
toda a extensão da Serra do Espinhaço, com exceção de Diamantina, sempre realizando
estudos e confeccionado relatórios mineralógicos que eram remetidos para a
Escola Politécnica de Paris. É de Monlevade, por exemplo, o primeiro registro
histórico sobre a imensa riqueza ferrífera de Minas Gerais. Naquele relatório,
Monlevade registrou:
“Na Província de Minas, além de inúmeras
camadas de mineral de ferro, mais ou menos extensas, existem cinco principais
cordilheiras; e pode-se afirmar que uma só delas encerra mais ferro do que
todas as da Europa reunidas, atendendo não somente a sua extensão e poder, como
a riqueza do mineral, o mais rico que se conhece; pois que analisado
quimicamente contem 76 % de seu peso em ferro”.
É
visível que a cada estudo mineralógico que fazia, Monlevade se impressiona mais
e mais pela a imensa riqueza ferrífera de Minas Gerais, o que fez com que ele
buscasse dar utilidade a todo aquele ferro. Monlevade via o ferro como um
agente civilizador. Mais tarde ele profetizaria: “o futuro grandioso desta
terra, hoje tão decadente, não está no ouro, nos diamantes, mas sim no ferro
este grande agente da civilização, como da segurança dos estados, e sem o qual
os países os mais civilizados em poucos anos estariam reduzidos ao estado
selvagem”.
Assim,
em 1818, a inquietude de Monlevade instalou um alto-forno em Caeté, onde produziu
muito ferro moldado na Fazenda do Rio Preto. O estabelecimento metalúrgico só
não prosperou em função da ausência de matas suficientes para o fabrico em
escala do carvão. Desse modo, não foi
correto comemorar os duzentos anos da chegada de Monlevade aonde hoje é o
município homônimo, como fez a Câmara de Vereadores local em 2017, haja vista
que em 1818 Monlevade ainda se encontrava a morar em Caeté, onde foi pioneiro
em proceder à primeira corrida de alto-forno. Contudo, o êxito na fundição do
ferro e na moldagem de vários artefatos úteis em Caeté tornou seu nome
conhecido, sendo o mesmo indicado para orientar a exploração da Galena do
Abaeté, promissora mina de prata e chumbo, onde Monlevade revelou toda sua
inclinação para alquimista, apurando dela pelo processo químico, 9.000 quilos
de chumbo em barras e um botão de finíssima prata. Durante o período em que
trabalhou na Galena de Abaeté, Monlevade conheceu João Batista Ferreira de
Souza Coutinho, o futuro Barão de Catas Altas, com quem manteria estreito laço
de amizade, ninguém menos do que o homem mais rico da região, então
proprietário da fabulosa e quase mitológica Mina de Ouro do Gongo Soco.
Após
sua experiência siderúrgica em Caeté, Monlevade prestou uma série de serviços
para o governo da Província de Minas Gerais, procedendo à análise química da
pureza e à medição quantitativa de várias jazidas minerais e Minas de Ouro.
Então,
em 1826 ocorreu o fato que foi determinante para que Monlevade se tornasse o
maior e mais bem sucedido metalúrgico residente no Brasil durante o sec. XIX: a
fundação da Imperial Brazilian Mining Association, a Companhia Mineradora do
Gongo Soco.
No
segundo quartel do sec. XIX, as minas de ouro superficial, de fácil acesso e
extração, constituídas por depósitos sedimentares das encostas dos morros e das
margens dos ribeiros e até mesmo as encardideiras macias de Ouro Preto, já apresentavam
considerável queda de produção. Contudo, segundo os estudos e as medições
mineralógicas feitas pelo próprio Monlevade, ainda existia muito, muito ouro.
Mas, para extraí-lo seria preciso o emprego de outras técnicas. Era o ouro de
veio, cuja extração demandaria a abertura e o escoramento de galerias
subterrâneas, o emprego do trem de vagonetes sobre trilhos e a utilização do
Engenho Mineiro de Pilões, equipamento mecânico movido por roda d’água, cuja
montagem e manutenção demandariam a produção de muito ferro forjado para triturar
o mineral aurífero. Como também
registraria o próprio Monlevade, em Minas Gerais o ouro ocorre associado ao
minério de ferro e, no caso do ouro de veio, o filão é encontrado entre as
camadas de ferro e a formação de um veeiro de quartzito, que é uma pedra muito
dura. Daí, a necessidade do emprego do Engenho Mineiro de Pilões para triturar
o duríssimo quartzito extraído das galerias subterrâneas, antes da lavagem para
apuração final do ouro. Inaugurava-se assim em Minas Gerais a fase
mecanizada de mineração do ouro, constituída pela fundação de numerosas
companhias mineradoras do ouro, as maiores delas de capital inglês e as mais
famosas as do Gongo Soco e do Morro Velho, e pelo estabelecimento da Fábrica de
Ferro Monlevade. Tratou-se de uma nova era na mineração do ouro, em Minas
Gerais, caracterizada pelo emprego de novas técnicas e equipamentos mecânicos
de mineração, que é considerada pela
historiografia como o alvorecer da indústria mineira. E caberia a Monlevade
produzir o ferro demandado pela mineração mecanizada que então se inaugurava,
sobretudo, as cabeças dos trituradores dos Engenhos Mineiros de Pilões que eram
blocos de ferro forjado de 80 quilos de peso, chamados de mãos de pilão, que
depois de 90 dias de funcionamento contínuo necessitavam ser substituídas por
outras novas, além de peças de ferro muito maiores, de mais de 900 quilos de
peso e todo tipo de ferragem.
Assim,
logo depois de vendida a Mina de Ouro do Gongo Soco pelo Barão de Catas Altas aos
ingleses da Imperial Brazilian Mining Association, Monlevade casou-se, em 4 de
janeiro de 1827, na Matriz de Caeté, com a sobrinha de Catas Altas, Clara
Sophia de Souza Coutinho, com quem teria dois filhos: João Pascoal de Monlevade
e Mariana Sophia de Monlevade.
A
experiência siderúrgica anterior de Monlevade em Minas Gerais, obtida na
Fazenda do Rio Preto, em Caeté, o ensinara que para fundar a Fábrica de Ferro
capaz de produzir peças em escala suficiente para atender a fase da mineração
mecanizada que se iniciava seria necessário o fabrico diário de grande
quantidade de carvão, o que não fora possível de se concretizar em Caeté devido
a ausência de matas em abundância para tal naquela localidade. Monlevade também
sabia que para atender àquela nova demanda por ferro necessitaria também
importar da Inglaterra pesado equipamento industrial, cujo transporte para o
interior de Minas Gerais só seria possível por meio de navegação pelos rios
Doce e Piracicaba. Assim, o local escolhido por Monlevade, que já havia
percorrido toda a Serra do Espinhaço, para instalar sua Fábrica de Ferro
deveria conjugar os fatores seguintes: ocorrência de matas suficientes para a
produção em escala do carvão vegetal; acesso ao Rio Piracicaba para transporte
dos equipamentos industriais; situar-se numa das cordilheiras de ferro
descritas por Monlevade; potencial hidráulico para fornecer a força motriz dos
equipamentos da fábrica e pouca distância do Gongo Soco, etc. O local escolhido
que reunia todos aqueles fatores acabou situado na margem esquerda do Rio
Piracicaba, a poucos quilômetros de São Miguel, onde Monlevade já havia
realizado estudos mineralógicos e hoje é o município homônimo.

Então,
em 1827, 10 anos após sua chegada ao Brasil é que Monlevade veio a fixar-se no local,
onde a seria o município que leva o seu nome, dando início à construção do
Solar Monlevade (foto acima), imponente sobrado de quatro faces que seria sua
morada, até o dia de sua morte, aos 83 anos de idade, e a sede administrativa
da Fazenda Carvoeira, Mina e Fábrica de Ferro Monlevade, por mais de um século.
Naquele mesmo ano, também teve início a um dos episódios mais extraordinários
da obra metalúrgica de Monlevade no Brasil: o transporte das pesadas máquinas,
importadas da Inglaterra e necessárias para o estabelecimento de sua Fábrica de
Ferro.

Um corajoso sócio de Monlevade, chamado Lourenço
Aquiles Lenoir, organizou uma pequena expedição de duas ou três canoas e desceu
os rios Piracicaba e Doce até o litoral do Espírito para certificar-se se seria,
realmente, possível navegar rio acima, transportando as pesadas máquinas que
seriam adquiridas na Inglaterra, empreitada jamais tentada, numa época em que
os respectivos vales eram habitados por índios guerreiros antropófagos.
Finalizada a viagem de ida com sucesso, Lenoir concluiu pela viabilidade do
transporte e imediatamente rumou para Europa a fim de adquirir a pesada
maquinaria. De volta ao porto do Rio de Janeiro, com a preciosa e pesadíssima
carga, Lenoir navegou pelo litoral num barco a vela de dois mastros rumo a foz
do Rio Doce, em Regência no Espírito Santo, onde os martelos de forja, apenas
um deles pesando 1200 quilos, as duas Rodas de Areage, o Grande Massame, o
Laminador, etc, foram desembarcados e baldeados para bordo de 12 imensas canoas
militares (foto acima), numa verdadeira operação de guerra, coordenada por outro ilustre
Frances, Guido Thomaz Marliere, Comandante das Divisões Militares do Rio Doce e
Diretor Geral dos Índios.

A
Expedição Monlevade (mapa) rio acima transportou 7.500 quilos de carga, abrangeu 3 estados
brasileiros, totalizou 1.100 quilometros percorridos, 7 meses de viagem e foi
tripulada uma centena de índios guerreiros da nação Krenak. Chegou exitosa ao
local escolhido para estabelecer a Fábrica de Ferro, em 8 de abril de 1828.
A
partir daí, Monlevade deu início à fundação do estabelecimento metalúrgico que
se consagraria como a principal Fábrica de Ferro a funcionar durante o Império
Brasileiro, tornado-se o fornecedor preferencial de artefatos de ferro para as
Companhias Mineradoras do Ouro. Sua Fábrica de ferro não foi a primeira do
Brasil e não era a única, mas foi a pioneira em contar com a divisão do
trabalho e a produzir em escala industrial carvão, ferro e artefatos forjados.
Também foi pioneira em produzir peças de ferro forjado de quase uma tonelada de
peso, as maiores até então já forjadas no Brasil e em transportá-las até seus
clientes, alguns a mais de 120 quilômetros de distância como a Mina do Morro
Velho, em Nova Lima.
Monlevade
é considerado pela historiografia como maior construtor de estradas carroçáveis
em Minas Gerais no sec. XIX, muitas
delas dotadas de pontes. Do Solar Monlevade partiam 6 ramos de estradas
carroçáveis ligando a Fábrica de Ferro a seus clientes e mercados consumidores.
Ainda hoje elas são utilizadas pelo modal rodoviário local, compondo uma rede
de caminhos que se integram de maneira muito especial à Estrada Real, já que
por eles eram escoadas peças de ferro para a mineração do ouro, podendo ser
considerada o circuito da Estrada Imperial do Ferro. O traçado da principal
avenida do Município, a Getúlio Vargas, coincide com o percurso da estrada por
onde transitavam os carretões de quatro rodas de Monlevade, puxados por muitas
juntas de bois, que escoavam a produção da fábrica e por onde também
transitavam muitas tropas que mantinham negócios com o estabelecimento ou vinham,
simplesmente, atravessar as pontes mantidas por Monlevade sobre os rios
Piracicaba e Santa Bárbara ou chegavam para comprar ferraduras, cravos e
ferramentas pela ferrar. Monlevade foi a Meca dos Tropeiros (vide ).
Na
verdade, aquela espécie de slogan que nos ensinaram nos bancos escolares como
“uma pequena forja catalã, fabriqueta de enxadas” jamais existiu. De fato, sob
o ponto da estrutura do estabelecimento, existiram 3 fábricas de ferro
Monlevade e não apenas uma. A Fábrica Velha, que funcionou de 1828 a 1853. A
Fábrica Nova que funcionou de 1853 a 1888 e a Fábrica de Francisco Monlevade,
que funcionou de 1891 em diante. As duas primeiras se localizavam abaixo do
Solar Monlevade, onde hoje é Rua dos Contratados. Delas só restaram poucas ruínas.
A terceira funcionou onde hoje é o Bairro Jacuí. Ela ainda está de pé e foi
adaptada para funcionar atualmente como uma hidrelétrica. A fábrica também não
era catalã. As máquinas para a Fábrica de Ferro Monlevade não foram importadas
da Catalunha, mas sim da Inglaterra, como já descrito acima. O mesmo maquinário
foi utilizado para equipar a segunda Fábrica de Ferro. E a Fábrica de Ferro de
Francisco Monlevade, no Jacuí, foi equipada com maquinário estadunidense e frances.
Catalão era apenas o processo de obtenção do ferro, que produzia um metal puro
de extrema qualidade e pouco quebradiço. Também não era a enxada o principal
produto da Fábrica de Ferro. Monlevade produzia enxadas e tudo mais que fosse possível
se fabricar em ferro forjado naqueles idos, contudo seu principal produto eram
as cabeças dos trituradores dos Engenhos Mineiros de Pilões que eram blocos de
ferro forjado de 80 quilos de pesos cada. O estabelecimento também não era nada
pequeno. A primeira Fábrica de Ferro Monlevade produzia quase 500 quilos de
ferro e 6.000 quilos de carvão diariamente, contava com seis fornos de fundir
ferro, de 80 quilos cada um, e quatro tendas de ferreiros. Utilizava as águas
do Ribeirão Carneirinhos, etc, para girar duas poderosas rodas hidráulicas que
moviam os 3 grandes martelos de forja. A
água do Ribeirão Carneirinhos, etc, também impulsionava o vento dos
ventiladores das fornalhas. Contava
ainda com 150 escravos e outros 50 colaboradores diretos. Durante o longo tempo
em que funcionou, foi a primeira e a única a fabricar peças de ferro forjado de
uma tonelada de peso, as maiores produzidas no Brasil até então. Assim, é
preciso passar uma borracha sobre o estigma de “uma pequena forja catalã,
fabriqueta de enxadas”, eis que na verdade o estabelecimento metalúrgico de
Monlevade foi a maior e mais importante Fábrica de Ferro a funcionar no Brasil
Império, fornecedora preferencial de artefatos de ferro das Companhias
Mineradoras do Ouro, estando inserido diretamente no circuito da Estrada Real.
O
maior cliente da Fábrica de Ferro Monlevade foi, sem dúvida, a Mina de Ouro do
Gongo Soco. De 1826 a 1856, com os artefatos de ferro produzidos por Monlevade,
o Congo Soco produziu nada menos do que
27.887 quilos de ouro puro, algo sem precedente ou paralelo no mundo,
tornado-o a mina aurífera que mais produziu ouro na história da humanidade. E
parte deste ouro coube a Monlevade, fazendo dele uma das maiores fortunas de
Minas Gerais no sec. XIX. Certamente que “uma pequena forja catalã”, não faria
de Monlevade uma das maiores fortunas de Minas em seu tempo.
Então,
também não é verdade aquilo que nos ensinaram nos bancos escolares no sentido
de que o ciclo da mineração do ouro em Minas Gerais durou apenas o sec. XVIII.
A Mina do Gongo Soco, por exemplo, foi a maior Mina de Ouro da história da humanidade
no sec. XIX. O Morro Velho segue em funcionamento até os dias atuais.
Além
das cabeças dos trituradores dos engenhos mineiros de pilões, que eram o
principal produto da Fábrica de Ferro,
Monlevade também produzia aguilhões, bigornas, engenhos de serrar
madeira, moendas para espremer cana de açúcar, etc.
O Catálogo de Preços (imagem acima) impresso da Fábrica de Ferro Monlevade revela que o estabelecimento ainda
produzia enxadas, enxadões, machados, ferraduras para mulas e cavalos, cravos,
ferramentas para ferrar, pregos,
fechaduras para portas, tachos, bigornas, ferro em barra, argolas para eixos,
cavilhas de tarraxa e porca, correntes, ferragem de carro e ferragem de engenho
de serra. A verdade é que a Fábrica de
Ferro Monlevade esgotava as possibilidades de forjar o ferro em objetos úteis,
sendo capaz de fazer de tudo que fosse possível em ferro forjado. Há registro
de mestres-ferreiros da Fábrica Monlevade que confeccionaram dois relógios de
parede e uma máquina de costura.
A
imagem de Monlevade também sempre esteve muito associada aos engenhos
hidráulicos, rodas d’água que movimentavam uma diversidade de máquinas. E a
principal delas era o Engenho Mineiro de Pilões (foto acima), equipamento mecânico muito
difundido na região que contava com um grande número deles em funcionamento e
cuja ferragem não apenas era produzida em Monlevade, como também era ele quem
fornecia a assistência técnica para mantê-los em operação.
Monlevade
foi a maior autoridade metalúrgica e mineralógica do Brasil durante o sec.
XIX. Tanto foi assim que ele era
comumente conhecido como Capitão Monlevade e pouco depois de sua morte em 1872,
a lacuna deixada por este competente metalurgista fez necessária a criação da
Escola de Minas de Ouro Preto que, inclusive, tentou adquirir os registros e a
Biblioteca que Monlevade colacionou durante o longo tempo em que viveu no
Brasil.
Outra
característica marcante de Monlevade era sua inclinação para viajante. Antes de
se fixar a pouca distancia de São Miguel, Monlevade já havia viajado por toda
Minas Gerais, com exceção do Distrito Diamantino do Tijuco. E depois de se
fixar, Monlevade jamais parou de viajar. Estava sempre em viagem para manter em
bom estado as estradas carroçáveis que abria e mantinha e para prestar
assistência técnica às Companhias Mineradoras do Ouro.
Monlevade
foi um exemplo perfeito de completa adaptação ao Brasil. Ele aportuguesou o próprio nome, de “Jean
Antoine Félix Dissandes de Monlevade”, passando a assinar “João Antônio de
Monlevade”. Adotou o Português como língua. Trocou a dieta européia a base de
trigo pelo feijão, pela mandioca e pelo milho. Casou-se com uma brasileira e viveu
até seu último dia no Brasil, onde foi sepultado. Foi o primeiro a produzir e a forjar em escala
o ferro brasileiro.
A
fase da mineração mecanizada do ouro, tecnicamente, viabilizada, por João
Monlevade deixou uma marca tão indelével na construção da identidade regional
que ainda hoje a herança daqueles idos pode ser observada no jeito de falar do
mineiro. Nas maiores companhias de mineração, como o Gongo Soco e o Morro Velho,
que pertenciam aos ingleses, falava-se apenas o inglês. A convivência com os
ingleses das companhias mineradoras fez com que o mineiro incorporasse em seu
vocabulário uma série de vocábulos de origem inglesa, que tornaram seu jeito de
falar muito típico. Manter o processo de mecanização sempre funcionando não era
tarefa fácil. Qualquer interrupção no processo mecanizado era imediatamente
acompanhada de uma cobrança por parte do patrão inglês, que exigia saber o
porquê do ocorrido. Então o inglês indagava ao mineiro o tempo todo: “why (?)”,
que é a tradução de “por que (?)”. Daí a origem da interjeição “uai”, tão
utilizada pelo mineiro para exprimir surpresa, espanto ou dúvida. “Sô”, que em
Minas é utilizado como pronome de tratamento e “trem”, que é utilizado pelos
mineiros como sinônimo de qualquer coisa, também são originários do convívio
dos mineiros com os ingleses nas companhias mineradoras do ouro. “Trem” é
referente ao “train” de vagonetes, sob trilhos, que eram empregados nas
companhias mineradoras para extrair o minério aurífero das galerias
subterrâneas; “sô” é a adaptação do vocábulo “sir”, que era como os ingleses
eram tratados nas companhias. E “ué”, que é utilizado pelo mineiro para
expressar desorientação geográfica, tem sua origem no inglês, “where”, cuja
tradução é “onde (?)”.

Das
duas primeiras Fábricas de Ferro Monlevade existem hoje apenas ruínas. Contudo
ainda há uma Fábrica de Ferro Monlevade de pé (foto acima).
Depois
de abolida a escravidão no Brasil em 1888, Monlevade já havia falecido há 16
anos e coube a seu neto, o engenheiro Francisco Monlevade, filho de João
Pascoal Monlevade, reajustar o estabelecimento à
nova ordem econômica e aos ventos da Revolução Industrial. Sem contar com o
capital necessário para modernizar a indústria do avô segundo as exigências da
época, Francisco Monlevade vendeu a propriedade à Companhia Nacional de Forjas
e Estaleiros do Barão de Mauá, por 1 mil contos de réis, mediante a condição de
permanecer à frente da administração do estabelecimento. Nesta terceira fase do
empreendimento, foi completamente abandonado o antigo local, abaixo do Solar
Monlevade, estabelecendo-se a casa da nova oficina na margem esquerda do Rio
Piracicaba (foto acima), abaixo do que é hoje a Represa do Jacuí. Neste período, a Fábrica
de Ferro Monlevade foi, integralmente, submetida aos efeitos da Revolução
Industrial, sendo equipada com uma série de maquinismos impressionantes, entres
os quais se destacam o Martelo-Vapor estadunidense (foto abaixo) e a Turbina Hidráulica
francesa de 600 cavalos. Quase todo o acervo do Museu Monlevade é, atualmente,
composto pelas máquinas da Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade, que
produzia 4 vezes mais ferro do que as duas primeiras do avô. E o mais
interessante é que o prédio que abrigou a Fábrica de Ferro de Francisco
Monlevade ainda existe e, atualmente, alberga a casa de máquinas da Represa do
Jacuí, no bairro de mesmo nome.

Por fim, tema que não pode deixar de ser abordado, quando se
discorre sobre Monlevade é a escravidão, principalmente, depois de incendiarem
a estátua do bandeirante Borba Gato.
Como mineiro, não me cabe a defesa de nenhum bandeirante. O maior feito
realizado pelos bandeirantes foi a descoberta das Minas de Ouro. Aliás, as
Minas de Ouro foram descobertas dentro do próprio território da Capitania de
São Paulo que era imenso e se entendia de Santa Catarina até o Mato Grosso.
Depois de descoberto o ouro, os bandeirantes paulistas intentaram em manter
para si o monopólio do controle e da exploração das minas. Eles então
provocaram a Guerra dos Emboabas, perderam o conflito e foram expulsos das
Minas de Ouro. As Minas de Ouro então se separaram da Capitania de São Paulo e
foi fundada a Capitania de Minas Gerais. Donde se conclui que bandeirante bom é
bandeirante expulso de Minas Gerais. Contudo, Borba Gato era traficante de
escravos, coisa que Monlevade jamais foi.
Monlevade foi um empreendedor do ramo mineral e metalúrgico e como qualquer
empreendedor no Brasil até 1888, formou e utilizou mão de obra escrava. Se
tivermos de queimar, de apagar ou de desconsiderar a história em função da
escravidão, teremos de desconsiderar Roma, o Egito, a Babilônia e toda a
história do Brasil até 1888, o que não podemos fazê-lo, sem imenso prejuízo ao
conhecimento histórico e a construção de nossa identidade brasileira. O período
mais importante da história do Brasil foi justamente aquele em que houve
escravidão. Não podemos apagá-lo ou queimá-lo.
O que temos de queimar é a cara de vergonha para encararmos o pesado
legado deixado por uma escravidão abolida apenas no papel, cujos descendentes
ainda têm a força de trabalho explorada no Brasil, tal qual como antes.