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domingo, 22 de agosto de 2010

História das Minas de Ouro e Diamante: a República do Manhuassu


Apesar de localizado um pouco distante dos caminhos das minas, onde foram encontrados o ouro, o diamante e as esmeraldas, o Município de Manhuaçu, em fins do sec. XIX, foi palco de um dos mais expressivos episódios da história de Minas Gerais, no sentido da reafirmação da natureza rebelde dos mineiros e que ainda hoje permanece oculto e desconhecido por muitos. Anos depois do exaurimento das minas de ouro, as vastas plantações de café da região da Zona da Mata mineira proporcionavam a energia de que os coronéis precisavam para a disputa do poder local. A proximidade com o litoral, a pecuária e a extração de madeira também tornavam Manhuassu (aqui escrito com dois “s” como era a grafia da época) um cobiçado pólo econômico, que atraía aventureiros de toda parte. Além das emboscadas e dos assassinatos, o poder também era assegurado através da imprensa local, como o jornal ‘O Manhuassu’, criado pelo enérgico coronel Serafim Tibúrcio. Eleito prefeito de Manhuassu, em 1892, Tibúrcio tentou novamente o cargo, dois anos depois. Mas os ventos não estavam a seu favor. Se o coronel era amigo pessoal do governador de Minas, durante a presidência de Deodoro da Fonseca (1889 – 1891), o cenário era outro na gestão de Prudente de Morais (1894 – 1898).Em 1894, o governador de Minas era Crispim Jacques Bias Fortes, simpatizante da ala política contrária a Serafim e apoiador do vigário Odorico Dolabela, seu concorrente no pleito. Nas urnas, 623 votos separaram o coronel do vigário. Porém, apesar do apoio popular, Tibúrcio não assumiu o comando da cidade. De certa maneira, o poder de mando dos chefes políticos locais era potencializado por uma legislação, que dava grande autonomia ao município, em relação ao Estado. Com o apoio de outros coronéis e potentados locais, o Vigário tomou posse como prefeito, em 1894. Inconformado, Serafim reuniu documentos e foi até Ouro Preto, então capital do estado de Minas Gerais, para tirar satisfações com Crispim Jacques. Este, por sua vez, não lhe deu ouvidos e afirmou que nada poderia fazer, pois o artigo 61 da nova Constituição da República impedia que o Estado interviesse na administração municipal. Ao voltar para Manhuassu, Serafim Tibúrcio encontrou uma situação ainda pior. Seus correligionários tiveram as terras expropriadas e o vigário iniciou uma forte campanha de difamação contra o coronel através de novos jornais da região, como ‘O Monitor’ e a ‘Folha de Barbacena’. Entre as acusações, estaria o crime de falsificação de dinheiro. Ironia do destino: em breve, Serafim Tibúrcio criaria sua própria moeda. Em 1896, o coronel foi intimado a depor sobre um assassinato que cometera, seis anos antes, quando ainda era delegado de polícia. Em um julgamento tumultuado, ele foi absolvido por legítima defesa da ordem pública, mas o episódio foi a gota d’água. Em meio às ameaças, perda de poder e do prestígio político, Serafim Tibúrcio invade Manhuassu com cerca de 400 apoiadores armados de carabinas, mosquetões, garruchas e espingardas, entre eles moradores e jagunços da região, e expulsa as autoridades, em 10 de maio de 1896. Conforme relatos do Diário Oficial do Estado de Minas Gerais, o coronel logo nomeou seus seguidores para cargos de administração dos diferentes setores do município e proclamou a República do Manhuassu, independente do Brasil e de Minas Gerais. Criou então o “Boró”, a moeda que circulou durante a breve vida da república.
O Boró, a moeda da República do Manhuassu

Já a ambição de Serafim foi grande e cruzou fronteiras. Com suas tropas, ele comandou invasões em direção ao estado do Espírito Santo, chamando ainda mais a atenção do governo para a insurgência. Ao ficar sabendo dos acontecimentos, Crispim Jacques tentou conter a revolta enviando um contingente de 25 homens, que foram, rapidamente, abatidos pelo exército de Serafim. O governador decide então enviar mais 100 combatentes e, novamente, amarga derrota. Sem mecanismos de ataques, Crispim pede ajuda ao vice-presidente Manuel Vitorino, que ordena a ida de 380 soldados das tropas federais.Além do cerco e da falta de recursos para enfrentar o exército, os próprios amigos do coronel Serafim já viam com temerosidade a República Manhuassu e aconselhavam seu líder a desistir dos planos. Tibúrcio acata os conselhos e foge em direção ao Espírito Santo. Estranhamente, as tropas não o perseguem e limitam-se a derrubar a recém fundada república, restaurando a influência federal em Manhuassu. Durante décadas, os inimigos do coronel governaram o município, estabelecendo um pacto silencioso para não tocar no assunto da insurgência, em função das mortes, inimizades e dolorosas lembranças de tal experiência histórica. No Espírito Santo, Serafim Tibúrcio se apodera de um extensíssimo latifúndio, em que assenta sua gente e administra como verdadeiro feudo. Falece de causas naturais, muitos anos depois como aquilo que sempre fora: um rico e influente coronel do café.