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sábado, 6 de março de 2010

História das Minas de Ouro e Diamante: a Grande Fome do Início do Sec. XVIII

Entre a descoberta do ouro, no final do século XVII e ano de 1705, vésperas da Guerra dos Emboabas, a população das Minas atingiu a vertiginosa cifra de 30 mil habitantes. Em apenas dez anos, os sertões mineradores assistiram a uma migração, sem precedentes na América Portuguesa, deslocando um grande contingente populacional para uma região inóspita e agreste, isolada no interior do continente, em meio a campos estéreis e a rios caudalosos. Nos primeiros núcleos de povoamento, como Vila Rica e Vila do Carmo, a paisagem era rude, com solo pedregoso, aspecto ameaçador e selvagem, abrindo-se em vales estreitos e profundos: nada alentador para a agricultura. Como as rotas comerciais de tropeiros ainda não haviam se consolidado e como ninguém admitia a idéia de ali permanecer, depois de rico, não se tomaram as cautelas para com a subsistência e, então, instalou-se a terrível fome.
O padre português André João Antonil, autor da importante obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, considerada o mais completo apanhado do Brasil Colonial do sec. XVIII, relata a fome que pairou sobre as minas:

“Sendo a terra que dá ouro esterilíssima de tudo o que se há mister para a vida humana, e não menos estéril a maior parte dos caminhos das minas, não se pode crer o que padeceram ao princípio os mineiros por falta de mantimentos, achando-se não poucos mortos com uma espiga de milho na mão e uma pepita de ouro noutra, sem terem outro sustento.”

No entanto, as primeiras referências a uma grande crise de fome remontam ao ano de 1698, quando o governador do Rio de Janeiro Artur de Sá e Meneses escreveu ao rei para informá-lo que os mineiros haviam deixado de minerar:

“pela grande fome que experimentam e que chegou a necessidade a tal extremo que se aproveitaram dos mais imundos animais, e faltando-lhes estes para poderem alimentar a vida, largaram as minas, e fugiram para os matos com os seus escravos a sustentarem-se com as frutas agrestes que neles acharam”.

Diante da fome aguda, muitos se retiraram para os matos, em busca de algum sustento. Os arraiais e datas minerais se despovoaram por completo, permanecendo abandonados à cobiça de novos aventureiros. Em pouco tempo, porém, os víveres silvestres se esgotaram, e nada havia para caçar ou coletar. A tal ponto havia se chegado à escassez de alimentos que, no ano de 1700, os matos ficaram silenciosos: não se ouvia sequer o pio dos pássaros. Para a grande maioria, recorrer-se aos mantimentos do sertão implicava numa experiência, radicalmente, nova: tinham diante de si espécimes animais e vegetais desconhecidos, que envolviam sofisticadas técnicas de preparo igualmente desconhecidas. Era o caso do bicho da taquara, que devia ser lançado num tacho bem quente, e ingerido ainda vivo, caso contrário, era venenoso.
A fuga maciça da população em direção aos matos, em busca de alimentos teve um resultado surpreendente: obrigou o mineiro a experimentar uma variada gama gêneros alimentícios nativos, principalmente, os vegetais, que passaram a ser incorporados aos hábitos alimentares dos primeiros mineiros. Donos de conhecimentos milenares sobre o que era ou não comestível nas regiões da minas, os indígenas foram os que menos sofreram com a fome.
Assim, senhores e escravos valeram-se dos conhecimentos dos nativos, incluindo em sua dieta folhas, raízes, ervas, tubérculos, legumes e frutos, aos quais não estavam acostumados. Assim, na diversidade dos brotos, das raízes, das folhas e dos frutos: a presença das samambaias, do bambu, da abóbora, da batata, da couve, do quiabo, do jiló, ora-pró-nobis, dos palmitos, da salsinha, da cebolinha, da taioba, do cará, do chuchu, do pepino, da abobrinha; na variedade das frutas: as pitangas, as amoras, o araticum, o bacupari, o jatobá, o araçá, o pequi, a cagaita, a jabuticaba, os figos, os marmelos, a goiaba; da caça e da pesca, o coelho, as pacas, o porco, o lambari, o mandim, o piau e as traíras e de vários outros elementos nasceu aquela que pode ser considerada a mais saborosa, diversa, gastronônica e inigualável culinária do mundo: a Culinária Mineira.

Posteriormente, em 1710, fundada a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, com o objetivo de cobrar impostos - o quito - a Coroa foi obrigada a abrir estradas e a aparelhar a região das Minas. Foi quando as rotas de tropeiros se estabeleceram, possibilitando o abastecimento dos mineiros e o fim da fome.