segunda-feira, 12 de junho de 2017

As Lições de Monlevade 200 Anos Depois de sua Chegada ao Brasil




Então, quais são as lições que João Antônio Monlevade nos deixa, depois de 200 anos de sua chegada ao Brasil?
A primeira lição é de bravura e coragem. Deixar a vida palaciana na França, cruzar o atlântico e ingressar em Minas Gerais em lombo de mula e assim percorrer quase todo seu território, muitas vezes ainda não desbravado, estudando e enviando relatórios freqüentes para a Escola Politécnica de Paris já é uma ato de extrema coragem. Fundar uma indústria num vale distante, selvagem, de mata fechada e povoado por índios antropófagos também demanda muita bravura. 
Monlevade foi pioneiro em várias coisas. Foi o primeiro a realizar uma corrida de ferro-gusa em Minas Gerais, ainda em Sabará. Foi o primeiro a organizar uma indústria, caracterizada pelo emprego intensivo de máquinas, muito antes do Barão de Mauá. Foi o primeiro a empregar uma máquina a vapor em processo industrial de produção. Foi o primeiro a produzir peças imensas de ferro, de mais de 900 quilos de peso. Foi o primeiro a confeccionar relatório sobre a imensa riqueza ferrífera do subsolo mineiro, etc, etc. 
Foi visionário quando profetizou “o futuro grandioso desta terra... não está no ouro, nos diamantes, mas sim no ferro, este grande agente da civilização...” Foi visionário quando requereu a instalação de uma ferrovia até Vitória, quase cem anos antes da inauguração da ferrovia Vitória-Minas. Foi visionário quando requereu a instalação de uma escola normal de metalurgia duas décadas antes da fundação da Escola de Minas de Ouro Preto. 
Monlevade também foi o Homem certo, na hora certa. Depois de já ter percorrido quase todo o território mineiro, estudando suas riquezas minerais; de já ter instalado fornos em Sabará e Caeté, onde enfrentou grande dificuldade pela falta do carvão, Monlevade viu a oportunidade de se tornar fornecedor das Companhias Inglesas de Mineração de Ouro que, a partir de 1825 se instalaram às dezenas por toda Minas Gerais e por empregarem processos industriais na exploração dos veios de ouro, demandavam a produção de uma variada gama de artefatos de ferro. Monlevade então se instalou em São Miguel, onde havia vastas matas para a produção do carvão , minério de ferro abundante e de ótima qualidade e acesso ao Rio Piracicaba, cuja navegação foi determinante para que Monlevade transportasse do porto do Rio de Janeiro, até sua fábrica, os 7.500 quilos de maquinário que importou da Inglaterra, incluso o Martelo-Vapor, o que capacitou sua indústria a se tornar a principal fornecedora das Companhias Inglesas. 
E a grande mensagem que Monlevade transmite é esta, da capacitação, da qualificação profissional, da visão empresarial e, sobre tudo, do emprego da tecnologia no trabalho. O Martelo-Vapor de Monlevade era o que havia de mais tecnológico em matéria de metalurgia na época. Sem ele, Monlevade não teria nada a fazer aqui. Sem ele e seus escravos, que eram exímios artesãos e operários capacitados, Monlevade jamais teria apresentado as condições para responder às demandas que lhe eram colocadas pelo mercado da mineração.
Então, se ainda não utiliza um máquina em seu trabalho, procure se capacitar para tal e passe a empregá-la em seu ofício. A tecnologia é capaz do impossível! Quem poderia imaginar, que no início de sec. XIX, um metalúrgico instalaria um Martelo-Vapor nas margens do Rio Piracicaba e, a partir dali, produziria imensas peças de ferro que, por 50 anos, viabilizariam a última fase da mineração aurífera em Minas Gerais? Tudo isso só se tornou possível mediante muita coragem, conhecimento, capacitação, visão e o emprego da tecnologia. 
Hoje, o Martelo-Vapor de Monlevade (fotos) integra o acervo do museu destelhado e fechado à visitação mantido pela Arcelormittal.