domingo, 9 de maio de 2010

História das Minas de Ouro e Diamante: Antônio Francisco Lisboa, O Mestre Aleijadinho


Antônio Francisco Lisboa, o Mestre Aleijadinho, nasceu em Vila Rica, por volta de 1730, filho de um famoso arquiteto português, Manoel Francisco Lisboa, e de uma sua escrava Isabel. Cresceu no ambiente da oficina do pai, onde aprendeu desenho, arquitetura, ornamento, escultura e entalhe. Aprendeu também a ler e a escrever, adquiriu noções de música e de latim. Com saúde plena e sem problemas físicos até seus 47 anos de idade, era um mulato baixo e meio gordo, de forte personalidade, profunda sensibilidade e muito perseverante. Com o seu trabalho ganhou bom dinheiro, mas também gastou muito, numa vida que, por diversos anos, foi repleta de excessos e de muita boemia.
Na Europa, Aleijadinho é considerado a reincarnação mulata Michelangelo, talvez, o maior artista da história da humanidade. Em todo o continente americano não há arte plástica que se compare ao esplendor da obra de Mestre Alejadinho, quem não por menos também ostenta o título de Patrono das Artes Nacionais. Nas Minas Gerais, Aleijadinho reinventou o barroco europeu, imprimindo-lhe elementos originais, constitutivos das matrizes étnicas brasileiras: a portuguesa, a africana e a indígena. Sua marca indelével está no Rococó, estilo artístico surgido na França e que, em Minas Gerais, antecedeu o Neo-Clássico 
Toda sua obra foi realizada em Minas, especialmente, nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei, Tiradentes e Congonhas do Campo. Realizou também importantes feitos, em Mariana, Nova Lima, Caeté, Catas Altas, Santa Bárbara e Barão de Cocais. Entre suas inúmeras obras, as mais expressivas são a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, constituída esta última pela mais completa série de profetas da iconografia cristã ocidental.

Igreja São Francisco de Assis, Ouro Preto/MG


Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas/MG

O apelido que o celebrizou veio de uma misteriosa enfermidade, contraida por volta de 1777, que, aos poucos, o foi deformando o corpo, os menbros e as feições. Uns a apontam como sífilis, outros como tromboangeíte obliterante ou ulceração gangrenosa das mãos e dos pés. 
Uma exumação recente e exames realizados em sua ossada sugeriram que Aleijadinho sofria de hanseníase associada a porfiria, esta última uma rara doença metabólica ocasionada pelo excesso de ferro no organismo, que, em algumas de suas manifestações, se assemelha à lepra. A porfiria atinge com mais freqüência os alcoolistas, cujo metabolismo hepático, em geral deficiente, propicia o acúmulo de ferro no fígado. Propensões genéticas e também a água de Ouro Preto, rica em sais ferrosos, também pode ter contribuído para o aparecimento da doença. Junto à casa de Aleijadinho havia um chafariz de alto teor de ferro, que ainda hoje é conhecido como Chafariz da Água Férrea. 
Há outros aspectos da vida do Mestre Barroco que apontam para o quadro da porfiria. Um deles é bastante significativo: Aleijadinho tinha o costume de trabalhar protegido por um toldo, mesmo quando esculpia dentro das Igrejas. Vestia um capote longo, de golas altas, e chapéu de abas largas. Também evitava sair à noite, preferindo trabalhar de madrugada, voltando para casa antes de o sol raiar. Uma das manifestações características da porfiria é a fotossensibilidade intensa, ocasionada pelo excesso de produção de porfirinas. E é, justamente, nas áreas expostas à luz solar é que surgem as ulcerações da pele, as quais evoluem para graves lesões nas extremidades, especialmente, nariz, orelhas e dedos, com possibilidade de perda de tecidos e mutilações. Antônio Francisco Lisboa foi progressivamente afetado pela porfiria e se afastou da sociedade, relacionando-se apenas com dois escravos e ajudantes. Nos dois últimos anos de vida se viu, inteiramente, cego e impossibilitado de trabalhar. Morreu em 18 de novembro de 1814, na casa de sua nora, no Bairro de Antônio Dias, na mesma Vila Rica onde nascera, deixando um legado artístico magnífico e incomparável.