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terça-feira, 13 de abril de 2010

História das Minas de Ouro e Diamante: Gongo Socco, o Colosso Aurífero

A mina do Gongo Socco é, hoje, explorada pela mineradora Vale, que extrai de seus antigos talhos o minério de ferro. Do arraial original, onde viveram e trabalharam cerca de 100 ingleses, 100 mineiros e mais 600 escravos, restaram apenas ruínas. Transcrevo, a seguir, um extrato da obra Opulência das Minas Gerais, publicada em 1924, que conta um pouco da história desta, outrora, formidável mina de ouro:

Aspecto atual da mineração no Gongo Socco, Barão de Cocais

Quarenta léguas, pouco mais ou menos, ao norte de Vila Rica (atual Ouro Preto) está o distrito de Gongo Socco, destinado a vir a ser mais celebre talvez que nenhum dos estabelecimentos fundados outrora em Minas Gerais.
Na linguagem indígena, Gongo Soco significa literalmente, Caverna de Ladrões. Existe no país uma tradição que, cem anos atrás, numerosos bandos de negros rebelados depositaram suas tomadias numa caverna natural, que se acha no jardim da Casa Grande. Os lucros consideráveis que os faiscadores tiraram do solo banhado pela torrente do Socorro deram uma reputação de riqueza a este lugar.
Um chamado Câmara, que era proprietário dela, apreciava tão pouco o seu valor que vendeu o Gongo pela módica soma de 800 libras st. ao Guarda-Mor geral das minas, José Alves da Cunha. Muito pouco tempo antes da morte deste último, dois negros, remontando sucessivamente os aluviões auríferos do regado do Gongo, descobriram em 1817, um grosso fragmento de ouro quase maciço de peso de cinco libras (dois quilos e meio) embutido numa rocha micacea ferruginosa. João Batista Ferreira de Souza Coutinho, depois o Barão de Catas Altas, que havia sucessivamente desposado duas filhas do Guarda-Mor geral José Alves, dirigia os bens de seu sogro, que era ao mesmo tempo seu cunhado, tendo desposado em segundas núpcias a irmã do Barão. Ele conservou secreto o descobrimento dos dois negros e, pensando que o fragmento de ouro havia sido descoberto da parte superior da montanha, fez diversas pesquisas que o levaram até a superfície aurífera da camada atual do Gongo. José Alves morreu em 1818 e o Barão de Catas Altas, de intendente que era desta mina, se tornou por usurpação proprietário dela, pois que dispôs a seu sabor dos reditos sem prestar conta alguma a seus parentes que eram seus co-herdeiros. No espaço de oito anos, ele ajustou, segundo o método brasileiro, talho aberto, somas imensas que se podem avaliar em milhões de cruzados. Durante dois anos, extraiu quinze libras (sete quilos e meio) de ouro por dia. Julgando esgotada a Mina do Gongo Soco, o Barão de Catas Altas vendeu-a pela soma de 90.000 libras st. à Companhia inglesa Imperial Brazilian Mining Association.
Casa do Barão de Catas Altas , em Gongo Soco, em foto de 1913, já em pleno processo de deteriorização.

Esta companhia se tinha formado em 1824, na ocasião da grande mania das especulações das minas; seu capital consistia em 350.000 libras st., representado por dez mil ações de 35 libras st. Cada uma.
A propriedade de Gongo compreende uma extensão de três milhas e meia em largura e quatro e três quartos de comprimento; está situada num belo vale regado pela torrente do Socorro, cujas águas, constantemente lodosas e avermelhadas, atestam as lavagens das minas.
Colinas cobertas de florestas e de pastagens formam ao longe as raias deste profundo vale. Antes de fazer esta aquisição, a companhia I.B.M.A possuía os domínios de Antonio Pereira e Cata Preta, perto do Arraial do Infeccionado. Cada uma destas propriedades é tão extensa como o Gongo e ambas têm grande fama de riqueza, porem é somente quando a Companhia obtiver da assembléia legislativa uma redução de direitos e for equiparada aos direitos pagos pelas outras companhias, que se poderá se ocupar da exploração dispendiosa, visto a natureza do terreno e o curso das águas que correm num vale profundo e estreito.
Desde 1826, os trabalhos da mina começaram em profundidade e realizaram logo as esperanças dos acionistas. No curto espaço de doze anos, esta mina extraordinária rendeu mais de 30.000 libras (quinze mil quilos) de ouro, perto de um milhão e duzentas mil libras st. O governo brasileiro teve, por sua parte deste grande total, perto de 2.000 contos, 15.000 lib. st. como direito proveniente da produção da mina, e 120 contos, 15.000 lib. st. como direito de exportação. Pode-se avaliar em 2.000 contos o dinheiro gasto pela Companhia na província das Minas...
É verdade que estes resultados são comprados a custa de enormes gastos, porque as despesas dessas dessa exploração não se elevam a menos de 45.000 lib. st. por ano, não compreendidos os 20% pagos ao governo sobre os produtos a mina. O número de empregados é considerável e foi preciso assignar grandes salários para decidir pessoas inteligentes a virem estabelecer-se nestas solidões. Um mineiro ordinário recebe 8 lib. st. por mês. É justo acrescentar que a careza é excessiva num país onde o transporte dos gêneros é feito às costas de bestas e onde, na estação das chuvas, as estradas tornam quase impraticáveis. Por serem os trabalhos da mina levados à grande profundidade, único meio de se obterem resultados importantes, foram necessárias florestas inteiras para se escorarem as obras subterrâneas.
Como a formação aurífera do Gongo é um composto de substancias moles, são por consequinte mui rápidos os progressos dos mineiros, mas para que não haja interrupção em seus trabalhos, é indispensável que sejam protegidos por vigamentos De três em três anos, apesar da dureza das madeiras brasileiras, devem esses vigamentos ser renovados, por causa da umidade que reina nas galerias do escoamento. Por isso a maior parte das madeiras, nos arredores imediatos do Gongo, já foram destruídas e a Companhia foi obrigada a comprar florestas a grande distância da mina.
A falta de madeira se faz sentir em todos os lugares onde estão estabelecidas as Companhias de Mineração... A estes gastos enormes se devem também juntar as ladroices que se cometem nas explorações; nenhuma vigilância seria capaz de acabar inteiramente com elas.
Nas minas de ouro seria preciso que cada mineiro ao sair da mina fosse estritamente revistado. Como semelhante revista não se pratica no Gongo, resulta daí que, nos tempos da grande prosperidade da mina, muitos empregados subalternos ajuntaram fortunas consideráveis. Agora, ou por estar a mina menos rica ou por ser melhor a moralidade dos mineiros, ou por ser maior a vigilância dos capatazes da mina, é fato que as ladroices se têm tornado infinitamente menos freqüentes.
Nada é mais desigual nem mais variável que os produtos da mina do Gongo. Como diz muito bem o diretor atual: a bloo of the peck may turn the voay from poverty to welth, uma enxada pode de um pobre fazer um homem opulento.
Em 1826, Gongo Socco era um miserável arraial, agora é uma linda aldeia européia que conta com mais de mil habitantes ligados ao serviço da Companhia. Duas Igrejas, uma delas católica e outra protestante suprem os misteres espirituais desta população. Os protestantes não têm até o presente tido motivo de mostrar-se satisfeitos dos pastores que lhes têm sido enviados de Londres. O último sobretudo, em vez de ser ministro da paz, trouxe discórdia à pequena colônia. Queria por força pregar contra o catolicismo; foi somente suspendendo-o de suas funções que se consegui restabelecer o sossego no Gongo.
Todas as casas do Gongo são de pedra e a mor parte delas rodeadas de lidos jardins. O hospital é um edifício espaçoso, bem distribuído, que, em caso de necessidade, poderia conter cem camas.