Muito já escrevi sobre a necessidade de um novo modelo de
gestão no Hospital Margarida. A Associação São Vicente de Paulo (ASVP), criada
pelo ex-prefeito inelegível Carlos Moreira (não confunda com a Sociedade São
Vicente de Paulo), por várias vezes, já se demonstrou inapta a administrar o
HM. Infelizmente, a ASVP não é especialista em gestão hospitalar; é, na verdade,
uma entidade política, vinculada ao inelegível ex-prefeito Carlos Moreira,
especializada em execução de obra de construção civil. Desde que assumiu a gestão do HM, a ASVP não
deixou de construir e de reformar lá. Há alas no hospital que já foram reformadas três
vezes pela ASVP. E como é muito comum em João Monlevade, nem sempre a obra
contratada é entregue. O telhado no Bloco Cirúrgico, por exemplo, também foi
reformado pela empreiteira. Contudo, quando chove, é necessário que o médico
cubra os aparelhos cirúrgicos com uma lona, para não perdê-los para as
goteiras.
Veja que a política hospitalar da ASVP no HM não é diferente daquela que produziu o
Santa Madalena, a absurda e fracassada tentativa de adaptar o prédio do
antigo terminal rodoviário num hospital de cem leitos, ao desperdício de muito
mais de 22 milhões de reais em recursos públicos da saúde. Para eles, pouco
importa o que vai se construir, desde que a empreiteira fature aqueles milhões. Em junho do ano passado, enquanto a ASVP executava mais obras de construção
civil, um bebê de 9 meses faleceu dentro do Hospital Margarida depois de 12
horas, sem atendimento pediátrico. Do que adianta construir prédios, se a
entidade não contrata médicos para preenchê-los, a fim de atender a população?
Teremos política pública de saúde voltada para o atendimento do povo ou para o
enriquecimento sistemático de empreiteiros, os mesmos que acabaram com a antiga Rodoviária? Ao que parece, Monlevade não aprendeu nada com o Santa Madalena.
Outra questão grave da ASVP é que, apesar de se intitular
como filantrópica, a entidade tem sido campo fértil para fenômenos nada filantrópicos.
Veja o caso recente do último provedor do Hospital Margarida, José Roberto
Fernandes. Conforme demonstra o Termo de Posse acima (clique no documento), em março de 2020, José
Roberto Fernandes encerrou seu segundo mandato como presidente/provedor da
ASVP, após quatro anos de filantropia à frente da entidade. Dois meses depois,
em maio de mesmo ano, José Roberto Fernandes adquiriu no município vizinho de S.D.
do Prata, um imóvel, pelo qual pagou o valor de 650 mil reais em dinheiro vivo,
conforme demonstra a certidão cartorial anexa (clique no documento). Veja que a certidão diz o
seguinte no item "Forma de Pagamento": "R$ 650.000,00, pago totalmente em espécie, que neste ato
confessam receber em moeda corrente nacional". Agora eu pergunto: que entidade filantrópica
é essa, onde o sujeito passa 4 anos fazendo filantropia e sai de lá com uma
mala de dinheiro recheada com mais de meio milhão de reais? Convenhamos a quantia
de R$650.000,00 em espécie não cabe numa caixa de sapatos. Foi uma mala de
dinheiro.

Filantropia é filantropia. Ou o cara faz filantropia ou ele
sai com uma mala de dinheiro. Quem é provedor não pode ganhar dinheiro lá
dentro, seja de que forma for, colocando empresa Top Vida Card no hospital, etc, ou
prestando serviço de “coaching” para funcionários do hospital, etc. Se o
provedor, por exemplo, é dono de rede de farmácia, ele jamais poderá vender
medicamentos para o hospital, porque do contrário, não será filantropia, mas
sim comércio, mesmo que ele seja espírita. Aliás, para a respeitosa doutrina do
espiritismo, qualquer execução de política de saúde pública que priorize a
contratação/faturamento de empreiteiros de construção civil em detrimento da
contratação de médicos plantonistas, resultando na morte de uma criança de 9
meses, certamente, deve ser uma questão moral muito perturbadora.
Com a palavra, a ASVP de Carlos Moreira. O povo de Monlevade exige saber como alguém passa 4 anos fazendo filantropia no Hospital e sai de lá com uma mala de dinheiro. Repito, numa caixa de sapados não cabem 650 mil reais em espécie.