Circula nos meios de comunicação que o governo Laércio
vai gastar quase 300 mil reais para instalar letreiros em quatro pontos da
cidade. Uma das frases a serem exibidas por um dos letreiros será: “João
Monlevade, capital mundial do fio-máquina.” Ainda segundo o anunciado, a
iniciativa visa incentivar o turismo local.
Será que Monlevade é mesmo a capital mundial do
fio-máquina, que é o produto semiacabado fabricado pela siderúrgica local? Na
década de 1980, o Brasil produzia seis vezes mais aço do que a China. Hoje, a China
produz vinte vezes mais aço do que o Brasil. Então, é difícil acreditar que,
atualmente, Monlevade seja realmente a capital mundial do fio-máquina. E mesmo
que fosse, tal título pode ser efêmero, já que basta que uma siderúrgica no
estrangeiro passar a produzir mais fio-máquina do que Monlevade para que o
município perca o codinome de capital mundial do fio máquina. E se o objetivo é
turístico, será que as pessoas de fora do município sabem o que é o
fio-máquina? Não, não sabem. E por óbvio, será muito difícil atrair turistas
divulgando um produto siderúrgico que é desconhecido da maioria das pessoas.
Ninguém sabe o que é o fio-máquina. A campanha é para o turista vir à cidade
para visitar a Usina e a linha de produção do fio-máquina?
E enquanto o governo Laércio busca atrair turistas,
divulgando um produto siderúrgico de uma empresa privada que ninguém de fora
sabe o que é, no próximo ano de 2027, Monlevade completará seus 200 anos de
história siderúrgica, que teve início com a Fábrica de Ferro do engenheiro
francês João Antônio de Monlevade. A riquíssima história do Município autoriza
títulos autoexplicativos e definitivos que possuem potencial muito maior para
atrair turistas, como por exemplo: “João Monlevade, berço da indústria
siderúrgica brasileira”. Indústria siderúrgica todo mundo sabe o que é. O governo Laércio não sabe, mas já nas primeiras décadas do século
XIX, a localidade que originaria o município de Monlevade foi berço da
siderurgia brasileira através da instalação da Fábrica de Ferro homônima, que
foi a primeira do Brasil e a produzir em escala industrial o ferro pesado para
a mineração do ouro, além de inúmeros outros artefatos de ferro. Mais 100 anos
depois, a localidade confirmou mais uma vez o título de berço da siderurgia brasileira
com a Instalação da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, que foi a primeira
siderúrgica integrada por sinterização, altos-fornos, aciaria à oxigênio e
laminação instalada na América Latina, em 1935, quase uma década antes da CSN. E berço da siderurgia todo mundo sabe o que é. A localidade que deu origem ao município de
João Monlevade viveu de maneira exclusiva, nacionalmente, as três fazes da siderurgia
brasileira, desde os martelos hidráulicos do francês João Antônio de Monlevade
(1827/28), passando pelo martelo-vapor da Companhia Nacional de Forjas e
Estaleiros do Jacuí (1891), a cargo de Francisco Monlevade, neto do primeiro,
até a instalação da moderna siderúrgica (1935), a CSBM, a cargo de Louis Ensch. Aliás, o Martelo-Vapor da CNFE do Jacuí é a
peça mais interessante do Museu Monlevade e se restaurado e colocado em
funcionamento para exibição, aí sim, teríamos imensa capacidade de atração de
turistas, além de permitir ainda ao Município o codinome de “João Monlevade:
terra do Martelo-Vapor”. Você, como turista, gostaria de ver uma bobina
enrolada de arame, que é o fio-máquina, ou uma exibição do Martelo-Vapor, que é
uma máquina a vapor típica da Revolução Industrial, que movimenta um malho de
1,5 tonelada, bufa rajadas de vapor e apita como uma locomotiva? Mas, o governo
Laércio nem sabe que ele existe.
Na verdade, o maior potencial turístico de João Monlevade reside na
maneira muito especial como a cidade se encontra inserida no mapa da Estrada
Real. Monlevade tem seis ramos externos da Estrada Real e outros dois ou três
ramos internos, que se tonaram as principais vias do município. O monlevadense
mora na beira da Estrada Real e não sabe.
E são as fábricas de ferro históricas dos Monlevade
que inserem a cidade na Estrada Real de forma muito especial, porque ao longo
dos anos elas foram 3 e não apenas 1. Esses estabelecimentos metalúrgicos foram
os fornecedores do ferro pesado necessário para a mineração mecanizada do ouro
no século XIX e são as relações pertencentes ao Ciclo do Ouro em Minas Gerais
que definem os pontos da Estrada Real. Mas para fomentar o turismo local é
necessário estruturar o circuito turístico, transformando os monumentos locais
como o Solar Monlevade, o Museu, o Cemitério dos Escravos, o Parque Histórico
do Jacuí, etc, em atrativos turísticos que possam ser visitados de terça a
domingo. E além do patrimônio histórico do século XIX, relacionado com o francês
João Antônio de Monlevade, o Município também conta com o patrimônio histórico
deixado pela Belgo-Mineira, como a Vila Operária ou o que ainda sobrou dela, a
Matriz S J Operário, atualmente interditada ao público, o Cassino, a Mata do
Caça e Pesca, a Escola Santana, em via de ruína, etc. Isso, sem falar na cultura da Batata Doce
que foi o produto agrícola mais cultivado e consumido na Fazenda Carvoeira e Fábrica
de Ferro Monlevade durante o século XIX, que tem imenso potencial gastronômico.
Turismo se fomenta é com história, cultura, museu e
monumentos abertos, arquitetura, gastronomia, circuito turístico, etc. O
restante é gastança de dinheiro sem resultado algum.


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