quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Ocidente não Compreende a Jihad

O brutal incidente ocorrido em Paris, recentemente, é mais uma mostra de que o Ocidente ainda não compreendeu o que é a Jihad.
Assim como o Hajj, que é obrigatória peregrinação à Meca, a esmola, o jejum no Ramadã e etc, a Jihad é um fundamento do Islã.  Conhecida também como Guerra Santa, a Jihad não possui apenas um forte significado religioso.  A Jihad também tem seus elementos morais, culturais, étnicos e até geopolíticos.  Foi por meio da Jihad, por exemplo, que o Islã se expandiu da Península Arábia, atingindo todo o Norte da África, Oriente Médio, instalando-se em certos períodos em Portugal, Espanha, indo até o Extremo Oriente.  É a Jihad que confere o caráter expansionista, próprio do Islã. Foi também a Jihad que tomou  dos europeus o controle sobre o comércio da Rota da Seda, mergulhando a Europa na pobreza da Idade Média.  
A história mostra que exército convencional não dá conta da Jihad. Cada jihadista é um soldado doutrinado, autônomo, que sabe o que fazer, sem precisar receber ordens centralizadas para tal, com extraordinária predisposição a morrer em combate, já que a Jihad é considerada um estado perfeito fé. 
O terrorismo não é uma exclusividade do Islã. Um dos mais famosos terroristas da historiografia mundial foi um conde católico que tinha o hábito de empalar jihadistas nos Bálcãs, região estratégia da Europa, que, durante a Idade Média, sofreu intensa pressão expansionista por parte do islã.   Esse terrorista era tão eficiente e sanguinário que lhe foi atribuída, com propriedade, a fama de beber o sangue de suas vítimas. Seu nome era Drácula. Aliás, no passado,  a Igreja teve seu próprio movimento contra-jihadista, que ficou conhecido como As Cruzadas. Durante mil anos, com o objetivo de retomar as fundamentais rotas de comércio com o Extremo- Oriente (Índia e China) e sem muito sucesso, o Catolicismo empreendeu uma série de Cruzadas, que, na brutalidade e no terror, não ficaram devendo nada à Jihad. Foi assim até o Ocidente perceber que a Jihad não podia ser derrotada, mas podia ser contornada. E foi assim que se deram as Grandes Navegações. Com a Rota da Seda tomada pela Jihad, a única forma de os europeus reestabelecerem o tão necessário comércio com o Extremo Oriente era por via marítima. O primeiro a chegar à Índia por via marítima foi o português Vasco da Gama. Daí em diante, a Europa se firma novamente como agente hegemônico do comércio mundial. Com isso, a Europa não apenas se livrou da pobreza da Idade Média como também criou as condições socioeconômicas para se engajar na Renascença e, posteriormente, na Reforma Protestante, que, no Ocidente, separou o Estado da religião.  As Cruzadas não eram mais necessárias.
Diferentemente da Igreja, o Islã ainda não passou por uma reforma do tipo da protestante.  Talvez, o Islã ainda não tenha tido tempo para isso já que é a última e a mais nova das três religiões monoteístas. Talvez, também não tenha tido condições socioeconômicas para tal, já que, com raras exceções, as nações islâmicas, invariavelmente, têm ocupado a periferia econômica do Mundo Capitalista moderno.
Como se vê, a Jihad não é algo novo, como muitos imaginam. Muito pelo contrário, a Jihad é coisa da Idade Média, que, portanto, não dialoga com conceitos modernos como a liberdade de expressão.  Assim, neste mundo pós-Guerra Fria, em que a Jihad volta a ganhar vida com muita intensidade, a publicação de charges provocativas do profeta Maomé chega a ser uma imprudência imensa. É o mesmo que, literalmente, cutucar a onça com um lápis,  além de um atestado de ignorância em relação ao Islã .
Por outro lado, também não é aceitável que o Mundo Moderno conviva com fenômenos medievais, como a Jihad, atualmente, verificada na Síria, no Iraque e na recorrência dos atentados. 
A Jihad não pode ser vencida por forças convencionais, mas pode ser sufocada. Num primeiro momento, seria preciso a coordenação de esforços globais para sufocar, materialmente, a Jihad. Seria preciso um movimento de toda a Comunidade Internacional para embargar o suprimento de armas, recrutas e insumos para os jihadistas.
Mas, fundamentalmente, seria  necessário que o Ocidente se engajasse junto a setores mais liberais da Comunidade Islâmica  como apoiador ou indutor de um processo de reforma dentro do Islã, tal qual já ocorreu com a Igreja Católica. Bombas, guerras e invasões já se demonstraram ineficientes neste processo e no caso específico do Iraque, ao contrário, apenas têm atuado como alimentadoras da Jihad.
Aí, depois que um Martin Lutero, de turbante, passar triunfante por Meca, talvez todos nós possamos dizer: je suis Charlie.