segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Clip Comemorativo dos 200 Anos da Chegada de Monlevade




Acho que qualquer pretexto já é suficiente para se comemorar Monlevade. João Antônio de Monlevade é um dos personagens mais importantes da história de Minas Gerais. Foi pioneiro e visionário em vários sentidos, além de autor de feitos decisivos para história de Minas que só poderiam ser realizados por ele e mais nenhum outro, naquela época. E ao contrário do que, comumente, se diz ou lê a respeito de sua obra, seu empreendimento aqui instalado não se tratou de “uma pequena forja catalã fabricante de enxadas e ferramentas agrícolas”. Muito mais do que isso, a “Soberba Fábrica de Ferro de Monlevade”, nas palavras de Guido Thomaz Marlieri, representou a indústria pesada da época, pois era equipada de pesado maquinário, no qual se destaca nada menos que a primeira máquina a vapor empregada em método industrial no Brasil, o desconhecido Martelo-Vapor de Monlevade, importado da Inglaterra por meio de inédita e arriscadíssima navegação pelos rios Doce e Piracicaba e capaz de forjar peças de ferro de mais de 900 quilos de peso que eram acomodadas em carretões de quatro rodas tracionados por várias juntas de bois e transportadas, de São Miguel para as Minas de Ouro de Morro Velho, em Nova Lima, Pari, em Santa Bárbara, Gongo Soco, em Barão de Cocais, etc. Monlevade foi o principal fornecedor de artefatos de ferros para as Companhias Mineradoras Inglesas que se instalaram às dezenas por toda a Minas Gerais, a partir do primeiro quartel do sec. XIX, e empregavam processos e equipamentos industrias na mineração do ouro, como o trem-minerador, um sistema de trilhos e vagonetes que retirava o minério aurífero das galerias subterrâneas e o Engenho de Eschwege, uma roda hidráulica acoplada a um conjunto de trituradores que, previamente, processavam o minério para lavagem do ouro, o que aumentava muito a produção da minas. Era Monlevade quem produzia as cabeças de ferro dos trituradores dos engenhos de Eschwege, que precisavam ser substituídas a cada 90 dias de trabalhos ininterruptos na Minas de Ouro. Muito mais do que em relação à agricultura, a história de Monlevade está, diretamente, ligada à última fase da mineração do ouro em Minas, o que insere o Município de forma muito especial no mapa da Estrada Real, outra situação completamente desconhecida. Durante os 50 anos em que funcionou sob seu comando, a Fábrica de Ferro de Monlevade foi, de longe, a mais importante do Império Brasileiro. 
Então, Monlevade apresenta todos os motivos para ser festejado a todo o momento. Circula no Youtube clip comemorativo aos 200 anos da chegada de João Antônio de Monlevade ao Brasil. O bom é que abandonaram aquela idéia errônea da comemoração dos 200 anos de chegada de Monlevade a São Miguel. Antes de se instalar em São Miguel, Monlevade passou anos viajando por Minas Gerais, estudando e enviando relatórios mineralógicos para a Escola Politécnica de Paris e chegou a morar em Sabará e Caeté, onde instalou fornos e amargou imensa dificuldade de produção pela falta de matas para fazer o carvão. Monlevade só vem a se instalar em São Miguel a partir de 1824, aproximadamente. Documento histórico comprobatório disso existe, é sua sesmaria. A data de fixação de Monlevade em São Miguel é a data da concessão de sua sesmaria. Então é correto, sensato e justo que esperemos 7 anos para comemorarmos a chegada de Monlevade a estas terras. 
Agora, o que nos traz insatisfação é ver que empresa envolvida no escândalo da Farra do Lixo, ocorrido no governo Carlos Moreira, que segundo o Ministério Público, trouxe um prejuízo de 4 milhões de reais aos cofres públicos municipais, patrocina o clip. Nos países desenvolvidos, onde existe parâmetro ético e, portanto, desenvolvimento, patrocinadores envolvidos em escândalos públicos de corrupção são, imediatamente, excluídos ou desconsiderados. Aqui, no país da corrupção, eles têm publicidade garantida. Não é por menos que aqui impera o subdesenvolvimento. 
Outra coisa que também chamou a atenção no clip foi o disparate em apresentarem imagens do Museu Monlevade, como ele se encontra, atualmente, ou seja, destelhado e com as peças, sobretudo, as de madeira, ao relento, perdendo-se sob efeito das intempéries. No país do subdesenvolvimento se comemora bicentenário de fato histórico com o acervo do museu (foto), que deveria preservar a memória do comemorado, se perdendo por falta de telhado, consideração, visão e fiscalização.