quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Caraça/2018: A Verdade Já! (50 anos do incêndio do Colégio do Caraça)


Minas Gerais se estabeleceu através de muitas instituições ao longo do tempo. As mais fundamentais delas foram o Seminário de Mariana, a Escola de Minas de Ouro Preto e o fabuloso Colégio do Caraça. Sobre este tripé fundou-se o que chamamos de Mineiridade, o jeito se ser do mineiro, que não tem nada a ver com o esteriótipo de caipira, feito circular muito na mídia. 
A passagem de 2018 fará completar os 50 anos do incêndio do Colégio do Caraça. Imagine que no ano mais conturbado da ditadura militar, 1968, uma das mais raras bibliotecas da América Latina ardeu na mais tradicional Escola de Filosofia de Minas Gerais, encerrando as atividades do colégio. Para a história oficiosa ficou a tese de incêndio acidental provocado por um fogareiro elétrico, supostamente, esquecido ligado, coisa improvável de ter acontecido. Todas as circunstâncias apontam para mais um atentado perpetrado pela Ditadura contra o Brasil. Regimes autoritários não convivem com escolas de filosofia. Além do mais, a grade curricular do Colégio do Caraça era direcionada para uma sólida formação humanista, tudo o que é considerado, enganosamente, como comunismo no Brasil. Não que o Caraça propagasse a doutrina comunista, de jeito nenhum. Mas é que no Brasil se confunde humanismo com comunismo, ou melhor, se utiliza da demagogia da ameaça comunista para impedir a humanização do país. Não é por menos que o Brasil é um dos países mais desumanos no mundo. O Brasil tem, anualmente, 60 mil homicídios, 50 mil mortos no trânsito, 40 mil mulheres mortas em clínicas de aborto, etc, etc. E os números não comovem ninguém, ano a ano se repetem, a questão não entra na pauta política e, assim, o invisível genocídio brasileiro parece que só terá fim após o extermínio do último brasileiro. Convenhamos, em contextos humanistas não há espaço para genocídios, muito menos os velados. 
Acho que o Brasil nunca precisou tanto do Colégio do Caraça, como agora. Aliás, em grande medida, pode-se dizer que o Brasil contemporâneo, tão bestializado, é produto direto da escolha covarde que se vez há 50 anos de incendiar a Biblioteca do Caraça e encerrar as atividades do colégio. A ausência de grandes líderes políticos no Brasil de hoje, certamente, é mais uma conseqüência do incêndio de 28 de maio de 1968. O Caraça é o único colégio brasileiro que pode ostentar uma lista de 120 ex-alunos que foram políticos notáveis a ocuparem os cargos como o de presidente e vice-presidente da República, governadores de Minas e de diversos outros estados, senadores, deputados, etc. Grandes lideranças, políticos honestos e preparados não dão em árvores. É preciso que o país as forme. E ao se fazer no passado recente a opção por incendiar uma escola especialista em formar lideranças políticas preparadas, o que se pode esperar para o presente, é justamente a realidade política brasileira. E não é só isto. O Caraça também fazia circular ideais, pensamentos, debates, etc. É preciso fazer um estudo mais aprofundado, mas como teve um núcleo positivista, é muito provável que idéias, como a transferência da capital de Minas para Belo Horizonte, a concepção de uma capital planejada, moderna e de traçado cartesiano, que, posteriormente, seria utilizada por Juscelino como ensaio para a concepção de Brasília, dotando o Brasil de uma modernidade própria e avançada, tenham surgido no Caraça. E isso é tão importante hoje, que é o fato de o Brasil ser um país muito moderno que tem permitido as transformações necessárias por que tem passado. As novas mídias eletrônicas, por exemplo, têm sido fundamentais para o Brasil, neste momento de instabilidade política. Se o mineiro tem o costume de dizer sobre algo que discorda que aquilo "não tem base" é porque no Caraça se contestava algo falacioso dizendo que aquilho "não tinha base filosófica".Tivemos muitos professores que estudaram no Caraça. 
Minas sem o Colégio do Caraça é manca. Depois de 50 anos de escuridão, o que se espera em 2018 é que a mesma luz a iluminar os vitrais da Igreja N. S. Mãe dos Homens também seja aquela lançada sobre este que tem sido um dos mais nebulosos episódios da história recente de Minas Gerais, não apenas para se fazer justiça histórica junto a tão importante e indispensável instituto cultural mineiro, como para demonstrar para aqueles muitos que formam sua opinião sem conhecimento de causa, que a ditadura militar brasileira, vigente de 1964 a 1988, foi muito pior e destrutiva para Minas e o Brasil do que se pensa. O sujeito que apóia um regime que ateou fogo no Colégio do Caraça não pode ser mineiro nem brasileiro !!! Caraça 2018: a Verdade já!