quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

História das Minas de Ouro e Diamante: Jean A. F. D. de Monlevade, O Patrono de Siderurgia Nacional


Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade nasceu em 1789, ano do início da Revolução Francesa e da Inconfidência Mineira, no Castelo de Bogenet, região de Creuse, França. Terminou o curso de Engenharia de Minas na Ècole Polytechnique em 1812 e entrou para o corpo de engenheiros militares em 1917. Em agosto do mesmo ano, veio ao Brasil estudar a geologia e a mineralogia do País. Foi autorizado a ingressar na Capitania de Minas Gerais por carta régia de Dom João VI, rei do Brasil, Portugal e Algarves, documento no qual, curiosamente, se lê:

...desviando-o porém de passar ao Distrito Diamantino do Tejuco (atual Diamantina) se por ventura ele pretender pois Sua Majestade não julga prudente que se facilite o ingresso de estrangeiros naquele Distrito.

Por razões obvias, o Rei não queria que um frances tivesse acesso às ricas jazidas de diamantes de Minas. Em suas andanças por São João Del Rey, São José (atual Tiradentes), Vila Rica (atual Ouro Preto), Sabará, Caeté e São Miguel do Piracicaba (atual Rio Piracicaba) trocou conhecimento com o Barão de Eschwege (contarei a história de Eschwege em oportunidade futura) . Em 1818, em sociedade com o senhor das terras da Fazenda da Barra do Rio Preto, em Caeté, construiu um forno para fusão de ferro com o qual eram produzidos bigornas, almofarizes e recipientes de ferro. Foi em Caeté que Monlevade conheceu João Batista Ferreira de Souza Coutinho, o famoso Barão de Catas Altas (vide postagem O Barão de Catas Altas de 31/10/2009) com quem manteve estreita amizade, parceria em negócios mineralógicos e de quem acabou desposando a sobrinha, Clara Sofia de Souza Coutinho. Em 1827, adquiriu algumas sesmarias, 2 léguas e meia ao norte do arraial de São Miguel do Piracicaba, lugar este que, apesar de distante dos mercados consumidores, reunia as condições para a implantação de sua pioneira fábrica de ferro: havia a ocorrência de jazidas de minério de ferro em abundância e de altíssima qualidade; água perene e farta o suficiente para o movimento de rodas hidráulicas; extensas reservas de mata para a produção do carvão e, mesmo que arriscada, ligação hidroviária com o porto do Rio de Janeiro através da navegação pelo Rio Doce e Piracicaba, o que foi imprescindível para o ingresso do maquinário necessário à instalação de sua Fábrica de Ferro.  Com o dote de 80 contos de reis recebido pelo casamento com Clara Sofia, Jean de Monlevade importou as 7,5 toneladas de equipamentos metalúrgicos da Inglaterra, incluindo a primeira máquina a vapor de Minas Gerais, que foram então transportados em canoas através do Rio Doce e Piracicaba sob a responsabilidade de Guido Tomas Marlière (vide postagem Guido Marlieri, o Imperador do Rio Doce de 28/11/2009), do porto do Rio de Janeiro até o Solar de Monlevade, em São Miguel do Piracicaba. Equipada a fabrica, ela passou a produzir 30 arrobas diárias de ferro. Contava com 150 escravos treinados na arte do ferro, além de ótimos pedreiros, carpinteiros, terreiros, carvoeiros, telheiros, arrieiros e etc. Segundo relatos, despendia bom tratamento a seus escravos:

Ali, na paróquia e distrito do São Miguel de Piracicaba, um afluente a dez ou doze léguas do verdadeiro rio Doce, fica a fundição de ferro do M. Monlevade, um colono francês da velha escola. Embora octogenário, ele trabalha mais que qualquer um de seus vizinhos... Seus escravos são bem alimentados, vestidos e alojados; como forma de pagamento, eles aproveitam o domingo para lavrar ouro no córrego e muitas vezes fazem 1$000 durante o dia; se tiverem de trabalhar dia-santo, recebem uma pequena quantia, a título de indenização. (relato de viajante inglês que passou por Minas na década de 1860)

Na Fábrica eram produzidos machados, pás, picaretas, enxadas, martelos, bigornas, caldeirões, panelas, freios de animais, ferraduras, mancais de roda, moendas de esmagar cana, engenhos de serrar madeira, pilões e aguilhões para o processamento do minério aurífero das minas do Gongo Soco e Morro Velho, além de tudo mais que se podia fazer com o ferro, naqueles idos. A Fábrica de Ferro de Monlevade foi a primeira do Brasil a contar com o maquinário necessário a produção de tal vasta gama de produtos. Em outras palavras, foi a primeira vez que se produziram no Brasil os artefatos necessários à atividade da mineração, da agricultura, da construção civil e etc, de maneira realmente industrial. Os produtos de Monlevade eram afamados por sua boa qualidade e apreciados por toda a capitania. Em 1872, morre Jean de Monlevade, com 83 anos. Com a abolição da escravidão, em 1888, a fábrica passa por grande dificuldade econômica, já que a obrigatoriedade da remuneração do operariado eleva os preços de seus produtos que não resistem à concorrência das manufaturas inglesas. Em 1891, a fábrica é vendida por 1.000 contos de réis à Companhia de Forjas e Estaleiros de José Evangelista da Silva, o Barão de Mauá, que deu continuidade ao empreendimento metalúrgico, porém sob a direção do neto do fundador, Francisco Monlevade. Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade foi sepultado no cemitério histórico ao lado do Social Clube.

Engenheiro frances, homem raro, digno de toda a estimação.Grande minerólogo, grande químico, além de muitos outros conhecimentos de física, matemática, literatura, amigo do Brasil como se fosse indígena (dizeres de Antônio Gonçalves Gomide, senador do Império do Brasil de 1826 a 1835)

Não se acomodou entre os prazeres e as facilidades da vida palaciana da nobreza francesa. Cruzou o Atlântico numa época de corsários e naufrágios, ingressou e percorreu Minas em lombo de moares, conquistou o respeitado e a estima do povo mineiro, tornou-se brasileiro, casando-se com uma brasileira, foi visionário, colaborou para o desenvolvimento da mineração de Minas como poucos; foi o pioneiro da metalurgia nacional, criando o embrião do setor que hoje prospera em nossa cidade.