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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

História Deturpada de Monlevade



A história de João Monlevade é tratada de forma muito parecida da história de Minas Gerais, o que não se encontra escondido é deturpado.
No ano em que se comemora o bi-centenário da chegada do francês, Jean de Monlevade, ao Brasil, já se vê circular em impresso frase do tipo “ Há 200 anos Jean Felix chegou à nossa terra e fundou a primeira forja catalã do país.”
Primeiro, é preciso ter em mente que a motivação inicial para Monlevade cruzar o Atlântico foi, mediante incumbência da Escola Politécnica de Paris, o estudo das riquezas minerais de Minas Gerais, coisa que levou determinado tempo para se materializar. Monlevade não veio direto do porto do Rio de Janeiro para São Miguel, onde fundaria seu empreendimento em 1817. Assim, não é correto afirmar que há 200 anos Monlevade chegou à nossa terra. Antes de se fixar em São Miguel, Monlevade esteve em S. J. Del Rey, Congonhas, Ouro Preto, Sabará, Caeté, Catas Altas, Santa Bárbara, percorreu toda Minas Gerais, sempre enviando relatórios para a França, com exceção de Diamantina, onde foi expressamente proibido de entrar, por ordem de Dão João VI. Segundo correspondência disponível no Arquivo Público Mineiro,  mantida entre o senador do Império Antônio Gonçalves Gomide e José Bonifácio, em 1823, ou seja, 6 anos depois de chegar ao Brasil, Monlevade ainda é encontrado a residir em Caeté, conforme se transcreve:

[...]
Reside no termo da Vila de Caeté Mr. Monlevade, sábio mineralógico, e que já trabalhou muitos anos em minas semelhantes na França. Este homem, amigo do Brasil como se fosse indígena, me tem dito que de bom grado se prestaria a ir ensinar a construção de fornos e o modo de fundirem os minerais e de se separar a prata do chumbo. Portanto, se V. Ex. encarregar o sobredito Monlevade esta diligência, julgo que verá os resultados que ainda não se puderam obter de outras mãos. Talvez a criação de uma companhia seja o meio mais adequado de se empreenderem em grande estes trabalhos, para o que, mesmo para cooperar com Mr. Monlevade, lembro a V. Ex. o generoso patriotismo, do Capitão-mor e G. Mr. Geral João Batista Ferreira do Souza Coutinho, em quem já falei a V. Ex., e a quem pode o Governo Provincial cometer a direção total deste negócio, cujo sucesso então asseguro a V. Ex. Rio de Janeiro, 16 de maio de 1823, Ilmo e Exmo Sr. José Bonifácio de Andrada e Silva – Antônio Gonçalves Gomide.

Monlevade só vem a se fixar em São Miguel, onde ergueu sua residência e sede administrativa de seu empreendimento – o Solar Monlevade – a partir de 1824. Então vamos esperar o alvorecer de 2024 para anunciarmos os 200 anos da chegada de Monlevade à nossa terra .
Neste anos de 2017, comemoram-se, na verdade, os 200 anos da chegada de Monlevade ao porto de Rio de Janeiro. O Rio deve estar empolvorosa!
Também não é verdade que Monlevade fundou a primeira forja catalã do Brasil. Aliás a utilização do termo “forja catalã” também tem sido responsável por deturpar e diminuir a história de Monlevade, pois não permite um vislumbre da dimensão de sua obra metalúrgica. Monlevade foi pioneiro em vários aspectos, mas não foi o primeiro e instalar uma forja catalã no Brasil. Antes de Monlevade, já funcionavam várias forjas catalãs em Minas: em Itabira, no Serro, nos arredores de Ouro Preto, Congonhas. Todas, diminutas, artesanais e, portanto, muito diferentes do empreendimento monlevadense. Catalão é apenas o método de se fundir o ferro. O termo mais adequado para se designar a empresa de Monlevade é “Fabrica de Ferro”, pois era a única, naquela época, equipada com variado maquinário, importado da Inglaterra e introduzido em Minas através de inédita e aventurosa navegação pelos rios Doce e Piracicaba, contando, inclusive, com o Martelo/Vapor de 1.200 quilos (fotos), a primeira máquina a vapor de Minas Gerais, utilizado para forjar peças de até 900 quilos de peso, coisa impensável de se produzir no Brasil antes da Fábrica de Monlevade, que, durante as numerosas décadas em que funcionou, foi considerada a mais importante do Império Brasileiro, conforme os registros. É o advento da máquina a vapor que inaugura a Era Moderna e cria o conceito de Indústria. 
Sejamos fieis, pelo menos, ao nosso Patrono.“Pequena forja catalã” é um termo que apenas diminui o imenso legado de um dos mais importantes personagens da História Mineira, alimentando, por exemplo, as forças que não se sentem confortáveis diante da formação de nossa identidade local e mantêm o Museu Monlevade fechado à estudo e à visitação.