segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Colunista, o Mau Político e o Colégio do Caraça



Peço licença ao colunista Luis Ernesto para explorar a ideia muito oportuna apresentada em sua coluna da última edição. 
Segundo o colunista, “atualmente, são raros os políticos que ficarão na história, seja por atos marcantes, ideologia e, principalmente, posição de liderança contra as mazelas de nosso país. Infelizmente, a maioria de nossos representantes de hoje será simplesmente esquecida, ou lembrada apenas por estar em listas de delações premiadas de empreiteiros picaretas e atolados na lama da corrupção. Salvo raras exceções.”
Ele tem razão, os políticos de hoje não são como os de antigamente. Mas, por que isso ocorre? É simples! Porque nossa sociedade está conformada para produzir este tipo de político. Cidadão consciente e político honesto não brotam do chão, são produzidos. E, diferentemente, de épocas passadas, hoje, a sociedade brasileira contemporânea não faz formação política, não faz formação ética e não faz filosófica, que são os ensinamentos indispensáveis para se produzir o tão desejado e quase extinto político honesto e competente. 
Hoje, o Brasil tem um modelo de escola pública que funciona apenas meio turno e não ensina os direitos básicos, a cidadania, a política, a ética e que somente em 2012 voltou a lecionar a filosofia. Na verdade, o atual sistema de educação pública brasileira não consegue sequer alfabetizar, satisfatoriamente, seu povo. O Brasil tem hoje cerca de 60 milhões de analfabetos funcionais, produzidos por esse sistema, que são aqueles que leem, mas não compreendem o que foi lido e por isso também não podem escrever. O analfabetismo não é meio fértil para política. Sem letras e compreensão não pode haver boa política, como é experimentado, hoje. 
Tome por exemplo, o fabuloso Colégio do Caraça. O Caraça é consagrado como o colégio mais importante da história política brasileira. Apenas o Caraça pode ostentar uma lista de 120 ex-alunos, em que, absolutamente, todos foram deputados por Minas Gerais e por vários outros estados, deputados federais, senadores, governadores e vice-governadores de estados de diferentes regiões do país, presidentes e vice-presidentes da República. Em regra, gente honesta e competente como Afonso Pena, Augusto de Lima, Benedito Valadares, Artur Bernardes, Olegário Maciel, etc. Jânio Quadros, citado pelo colunista, não estudou no Caraça, mas se formou no mesmo humanismo do Colégio Paranaense, também mantido pelos incríveis padres lazaristas em Curitiba. E todos formados, com muita disciplina, nas lições de filosofia, história, cidadania, ética, política, etc, do Colégio do Caraça, etc.
Imagine que em 28 de maio de 1968, o ano mais conturbado da Ditadura Militar, a Grande Biblioteca do Caraça foi incendiada, encerrando as atividades do Colégio. Foi assim: em 64, foi dado o Golpe, em 66, a filosofia foi proibida nos currículos escolares e em 68, a mais tradicional Escola de Filosofia de Minas ardeu chamas. Coincidência? 
E hoje, como são formados os políticos brasileiros? Quais instituições substituíram o papel que coube ao Caraça, na formação política? Nenhuma! Além de uma escola totalmente avessa à formação política, ainda temos um modelo de grande mídia, que só divulga as mazelas da política nacional e não pauta as grandes demandas políticas nacionais. Para se ter uma ideia, dentre as 5 maiores emissoras de televisão do mundo, a Rede Globo é a única que não tem em sua programação um programa sério para se discutir política. O único que abordava a matéria e, mesmo assim, oscilando entre tantos outros temas, era o programa do Jô Soares, encerrado no fim do ano passado pela emissora. 
Outro ponto relevante na ideia do colunista, é que ela admite que já tivemos políticos honestos e competentes, o que desbanca o entendimento circulante de que o Brasil sempre teve apenas políticos corruptos e omissos. A história mostra que o Brasil pôde contar com muitos políticos honestos e eficientes num passado não muito distante. E se pôde fazê-lo no passado, o mesmo também pode ser feito no presente e para o futuro. Basta querer recriar as condições para tal. O Brasil nunca precisou tanto de instituições como o Colégio do Caraça quanto agora. Será que dá pra reativá-lo? Ou vamos continuar nesse mar de lama e incompetência?