sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
A Ponte Torta no Contexto do Genocídio Velado Brasileiro
terça-feira, 22 de dezembro de 2020
Monlevade: a Meca dos Tropeiros
Não houve outro estabelecimento tão bem quisto, afamado e
útil para as tropas de toda a região quanto a Fábrica de Ferro de João
Monlevade. Ela foi a Meca dos Tropeiros! Será preciso cunhar a expressão “tão feliz
quanto um tropeiro em Monlevade”.
A Fábrica de Ferro Monlevade instalada a partir de 1828 foi
por mais de 50 anos a felicidade geral dos tropeiros . Poucos estabelecimentos
atraiam tantas tropas quanto ela e os motivos eram os mais variados. Na fábrica, os tropeiros podiam adquirir os
melhores cravos e as mais duráveis ferraduras,
além das ferramentas de ferrar (catálogo anexo). Nela, os tropeiros também podiam
ferrar toda uma tropa em pouco tempo. Muitos tropeiros, vindos das mais diversas
regiões de Minas Gerais, viviam de revender ferraduras, cravos e vários outros
artefatos produzidos na fábrica. Neste sentido, é preciso recordar que do Solar
Monlevade partiam para todas as direções seis ramos de estradas carroçáveis. Praticamente, toda a produção de artefatos
menores de ferro forjado, tais como pregos, cravos, enxadas, foices, machados,
fechaduras, dobradiças, etc, etc, era
escoada través das tropas. As tropas
também eram atraídas pelas pontes mantidas por Monlevade sobre os rios Santa
Bárbara e Piracicaba. A Fazenda
Carvoeira e a Fábrica de Ferro Monlevade ainda possuíam suas próprias tropas.
No Relatório de 1853, Monlevade registrou que entre seus escravos existiam “ótimos
arrieiros”, que eram aqueles que lidavam com as tropas. Sobre as tropas,
Monlevade ainda registrou, expressamente:
“Em fim este lugar outrora inteiramente deserto, está muito freqüentado
pelas numerosas tropas carregadas de mantimentos que vão para a mata e saem
dela, assim como por outras que tem negócios com a casa, todas se aproveitando
das estradas, e no tempo de seca de uma das pontes que franqueei ao público”.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
Tragédia foi dentro da Sesmaria de João Monlevade
O trágico acidente que vitimou 19 pessoas, depois que um ônibus despencou da Ponte Torta, na rodovia 381, ocorreu dentro da Sesmaria de João Monlevade.
Ao lado da Fábrica de Ferro fundada a partir de 1828, funcionou a Fazenda Carvoeira de João Monlevade, composta por quatro sesmarias de terra cobertas de mata fechada. Ela produzia pelo menos cinco toneladas diárias de carvão vegetal que eram consumidas pelos diversos fornos da Fábrica de Ferro. Eram duas as carvoarias, uma de cada lado do Rio Piracicaba, cujos acessos se davam por meio de duas pontes lançadas sobre o mesmo. O ônibus, ocupado por quarenta e oito passageiros, oriundo de Mata Grande, nas Alagoas, e com destino a São Paulo capital, despencou, tragicamente, dentro da histórica sesmaria de mata de João Monlevade, na margem esquerda do Rio Piracicaba, ao lado da rota dos tropeiros, e, praticamente, sobre o leito da ferrovia Vitória-Minas. Apesar do número absurdo de vítimas fatais, a tragédia poderia ter sido ainda maior se o ônibus tivesse caído dentro do Rio Piracicaba (lago da Hidrelétrica do Jacuí) ou sobre os vagões de alguma composição da ferrovia Vitória-Minas em movimento ou até mesmo sofrendo uma colisão frontal com o trem.
Em João Monlevade os sobreviventes puderam contar com uma grande estrutura de resgate e assistência, representada pelo SEVOR (Serviço Voluntário de Resgate), pelo pronto-socorro médico do Hospital Margarida, pelo acolhimento no Albergue Municipal, além da mobilização de doações. Quarenta minutos após o momento do acidente todos os sobreviventes já haviam sido resgatados e encaminhados para o Pronto Socorro do Hospital Margarida.
Agora, se o Brasil fosse um país sério onde a vida humana, realmente, tivesse algum valor, as autoridades providenciariam, com urgência, a mudança da amureta da Ponte Torta para uma mais moderna como aquelas que podem ser vistas no traçado já duplicado da rodovia 381 e são capazes de conter o veículo, mesmo os grandes, no leito da pista, impedindo a sua queda, de modo a que nunca mais uma tragédia como aquela pudesse ocorrer novamente na Ponte Torta . É o que acontece nos países sérios, depois de uma tragédia. A lição que fica é a de respeito às regras de segurança e a necessidade de se agir com perícia e responsabilidade no trânsito sempre e ainda mais ao se transportar 48 almas. É a pior tragédia da história do Município.
Em 2020, as tragédias são em âmbito global, nacional, regional e municipal.
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
O Fim de um Ciclo do Terror e a Primavera que não se Acaba Mais
sentido. Mas, graças a Deus que acabou. Mesmo que ele continue na Rádio Global, ela não tem o poder que já teve a Rádio Cultura. Vivemos a era das redes sociais de mídia eletrônica.
terça-feira, 24 de novembro de 2020
Brincadeira da Infância Monlevadense: uma caixa de sapatos, uma lâmpada cheia d'água, uma vela e um retalho de filme do Cine Monlevade
terça-feira, 3 de novembro de 2020
Cemitério Histórico pode ser a maior fonte de dados sobre a escravidão em João Monlevade
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Dois Mestres-Carreiros de Monlevade transportam um Aguilhão de 900 quilos de ferro forjado até a Mina de Ouro do Morro Velho
Meu nome é Januário, sou escravo de Angola e mestre-carreiro na Fábrica de Ferro Monlevade. Nos próximos dias, conduzirei com o auxílio de meu ajudante, Francisco Ferreiro, o carretão de quatro rodas, puxado por 7 juntas de bois, que transportará o aguilhão de 60 arrobas (900 Kg) de peso, daqui, da porta da forja, até a Mina de Ouro do Morro Velho, a 20 léguas (130 Km) de distância, onde deveremos entregá-lo a salvo, sem a menor falência, e no menor prazo possível.
1° Dia.
No segundo dia de viagem, madrugamos para emparelhar o gado no carro e partimos rumo a Santa Bárbara. Levamos bastante feno para a alimentação do gado no próximo pouso que será à beira da estrada. Precisamos fazer render bem a marcha do carro para chegarmos a Santa Bárbara em dois dias. A diante, na estrada, vai o rastro fresco de uma mula. ¼ de légua depois, o rastro da mula coincidiu com pegadas de gente. É... parece que o cavaleiro caiu da montaria. ¼ de légua mais a frente, encontramos o cavaleiro, à pé e nada da mula, a não ser o seu rastro. Ele nos disse que havia apeado para matar a sede no ribeirão, quando sua mula fugiu em disparada. Sei não, o sujeito manca um pouco, está mais para queda. E perguntou se podia pegar uma xepa no carretão. O Capitão Monlevade nos orienta a não darmos carona no carro. Mas, deixei que ele pegasse “o boi” e nos acompanhasse enquanto o rastro da mula se mantivesse no leito da estrada. Rodamos por todo o dia, parando algumas vezes nas sombras e nos bebedouros, até alcançarmos o ponto do próximo pouso, no fim da tarde, onde nos deparamos com a danada da mula, lá paradinha, como se estivesse aguardando seu cavaleiro. Desta vez, vamos pernoitar a beira da estrada. Nestas condições, o gado nem é retirado das gangas, as juntas são apenas separadas. O gado é manso, obediente, quase treinado. Ele é alimentado com feno e passa a noite ruminando. O cavaleiro da mula fugida seguiu apressado para Santa Bárbara. É noite de lua cheia, a estrada está bem iluminada. Como o Capitão Monlevade nos orienta a não movimentarmos o carro durante a noite, ficamos por aqui. Agora, é a minha vez de preparar o feijão tropeiro. Chico Ferreiro acendeu as lanternas e foi buscar lenha. Depois do jantar, dormimos.
No terceiro dia de viagem, já no alvorecer, apagamos as lanternas e o fogo, emparelhamos as juntas de bois, enganchamos o carro e seguimos rumo a Santa Bárbara. Chico Ferreiro, agora viu rastro de lobo na estrada. Em Monlevade existem muitos, eles só atacam os galinheiros. Vamos parando nos bebedouros, alimentando os bois com feno e respeitando o sol forte, apesar do inverno. Já no fim da tarde, chegamos a Santa Bárbara, onde pousamos no mercado das tropas. Levamos o gado para o curral e eu vou à mercearia comprar ovos e lingüiça para o feijão-tropeiro do jantar. O Capitão Monlevade permite a nós, seus escravos, que aproveitemos o domingo para lavrar ouro nos ribeiros. Então, agora é hora de gastar um dinheirinho! Na volta compramos um monte de encomendas para toda a Senzala. Os que mais compram são os mestre-ferreiros. Por isso, a comida deles é tão boa.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Estrada do Forninho até Itabira foi aberta por Monlevade, há quase 170 anos
Não é por
menos que o metalurgista, poeta e minerálogo, João Antônio de Monlevade, é
reconhecido pelos historiadores como um dos maiores construtores de estradas do
século XIX em Minas Gerais, quase sempre carroçáveis, e dotadas de pontes para
a travessia dos rios. Monlevade
compreendia que o desafio não era apenas o de produzir, em escala, as maiores
peças de ferro já forjadas no Brasil, mas também transportá-las até os mercados
consumidores ou a seus clientes preferenciais. Muito antes das estradas de
ferro, o transporte disponível para escoamento da produção da Fábrica de Ferro
eram as tropas e os famosos carretões de quatro rodas, puxados por muitas
juntas de bois, também fabricados em Monlevade.
A estrada de
carro mais longa aberta por João Monlevade que se tem registro é a que ligava
sua Fábrica de Ferro à Mina do Morro Velho, em Nova Lima, contando com 130
quilômetros de extensão. As viagens de carretões de quatro rodas puxados por
muitas juntas de bois e carregados de peças de ferro mais freqüentes eram pela
estrada até a Mina do Gongo Soco, que era o principal cliente da Fábrica de
Ferro. Mas, outras localidades também representavam mercados importantes para
os artefatos de ferro produzidos em João Monlevade, como a cidade de Itabira.
Foi em
Itabira que pela primeira vez em Minas Gerais se empregou na mineração do ouro
a tecnologia do Engenho Mineiro de Pilões, cuja ferragem completa, inclusive as
cabeças dos trituradores, era fabricada em Monlevade. As elevadas somas de ouro
apuradas nas minas do Pico do Cauê demandavam cada vez mais ferramentas e peças
de ferro para explorá-las. Assim, até pela pouca distância, a Fábrica de Ferro
Monlevade não poderia ficar sem
comunicação direta com a cidade de Itabira.
No Relatório
de 12 de dezembro de 1853, Monlevade comunica ao Governador da Província de
Minas Gerais, Diogo de Vasconcelos, o andamento da construção da estrada até
Itabira, que, àquela altura, dependia da conclusão da ponte sobre o Rio Santa
Bárbara para prosseguir rumo ao destino pretendido. Ele escreveu, “ Ela (a
fábrica de ferro) é aqui distante ... a seis léguas da cidade de Itabira , mas
ficando acabada a ponte agora em construção sobre o Rio Santa Bárbara, assim
como a estrada da dita para a cidade, ficará a distancia reduzida a 4 ¼
léguas”.
A partida
pela Estrada do Forninho rumo a Itabira inicia-se no nível do Córrego
Carneirinhos, no entorno do Solar Monlevade e originalmente, seu trajeto
inicial seguia pela rua de acesso ao Bairro Pedreira, até alcançar o leito
atual da estrada no trevo à frete, para subir a Serra do Andrade e descê-la
pelo outro lado até o nível do Rio Santa Bárbara, atravessando a ponte e voltando
a subir, serpenteando pelas cristas das serras, vindo a descê-las apenas quando
já se avista a cidade de Itabira. O percurso é, muitas vezes, íngreme e,
sempre, sinuoso. É incrível saber que aquele trajeto foi, originalmente, aberto
em meados dos anos de 1800, a golpes de machados, enxadas, picaretas, etc, e
que por aquelas alturas trafegaram numerosas tropas e pesados carros de bois,
carregados de peças de ferro.
Mas como se
pode afirmar que o trajeto original da Estrada do Forninho foi aberto por
Monlevade? Ora, pelas informações prestadas por João Antônio de Monlevade ao
Governador de Minas, em 1853. Não há outra estrada que liga, diretamente, o
município de João Monlevade à cidade de Itabira, passando uma ponte sobre o Rio
Santa Bárbara e medindo exatas 4 ¼ léguas, ou seja, 28 quilômetros de distância.
A estrada anterior, de 6 léguas de extensão a que Monlevade se referiu é aquela que passa por São Gonçalo do Rio
Abaixo. Claro que nestes últimos quase
170 anos, a Estrada do Forninho, passou de estrada carroçável à uma estrada de
rodagem bastante sinuosa, recebendo alargamento, pavimentação asfáltica, sinalização, rede
de drenagem, etc (foto). Mas, o seu traçado original, sem dúvida, é aquele, cuja construção foi mencionada por
João Antônio de Monlevade no Relatório de 1853.













