quinta-feira, 26 de agosto de 2021
O Relatório de 1853 de João Monlevade
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
Subsídio para a Enscon é Vergonhoso e Irresponsável
É, realmente, vergonhoso e irresponsável o subsídio que o
governo Laércio/2024/Fabrício/Candidato pretende conceder à Enscon, concessionária
do serviço de transporte público urbano.
É vergonhoso porque a Enscon presta um serviço de péssima
qualidade e o preço da tarifa é um dos mais caros de Minas. Hoje, a Enscon não
é fiscalizada em absolutamente nada pela administração pública, apesar de
faturar milhões e de prestar um serviço publico de natureza essencial,
diretamente, ligado ao direito de ir e vir dos munícipes. A Enscon não cumpre o
contrato que celebrou com o Município e nunca foi punida por isso. Ela não
respeita os horários, itinerários nem os trajetos que os coletivos devem percorrer,
tudo de acordo o que é mais lucrativo para ela. Ela coloca ônibus na hora que
ela quer e do jeito que ela quer. A Enscon, por exemplo, suprimiu os trocadores,
reduzindo pela metade sua folha de pagamentos, mas jamais fez repercutir tal
economia no preço da tarifa. Ao contrário, abocanhou-a como lucro, colocando
dezenas de mães e de pais de família na rua. É irresponsável porque é a Enscon quem
comunica à Prefeitura quantos quilômetros, quantos passageiros, quanto de combustível,
quanto de pneu, etc, foram contabilizados naquele mês. Ela não é mais fiscalizada, não existem mais
aqueles fiscais da Prefeitura que colhiam os dados a bordo dos coletivos nos
pontos finais. É como se fosse a raposa quem comunicasse quantos ovos o
galinheiro produziu naquele mês. Além disso, a planilha de custos, utilizada no
Conselho Municipal de Transporte (CMT) para compor o preço da tarifa é obsoleta
e obscura, de modo que não permite a aferição do lucro da empresa. É obvio que
a empresa busca o lucro, mas por se tratar de prestação de serviço público
essencial, seu lucro não pode ser exorbitante. Há 30 anos, o CMT reajusta o
preço da passagem de ônibus, sem conhecer o lucro da empresa. É como alguém conceder
aumento de salário para um funcionário sem saber quanto ele ganha, ou alguém
pagar pelo abastecimento do carro, sem saber quantos litros foram colocados no
tanque. A planilha de custos da Enscon é um cheque em branco avalizado pelos
prefeitos. E dar cheque em branco é coisa de gente irresponsável, sobretudo,
quando se trata de dinheiro público. Assim, se agissem como mínimo
responsabilidade, a primeira providência a ser tomada para se discutir a
concessão de subsídio à Enscon seria revelar para o povo o lucro dos últimos 60
meses da empresa, coisa que ninguém nunca fez, nenhum vereador. E o repasse do
transporte escolar que o Município faz para Enscon? Durante a pandemia, as
aulas presenciais foram suspensas, junto do transporte de estudantes, e o que
aconteceu? A Prefeitura seguiu realizando os repasses para Enscon? Ninguém
tocou no assunto.
“Garantia do transporte público no Município” se faz com
fiscalização, transparência e cumprimento do contrato pela empresa, não com
subsídio financeiro. Se a empresa pede subsídio, a primeira coisa a ser
reavaliada é sua capacidade econômica de prestar o serviço. E quem não tem
capacidade econômica, apesar do imenso favoritismo que tem desfrutado, não pode prestar um serviço público da
envergadura do transporte coletivo. O governo municipal perdeu uma ótima
oportunidade de rescindir o contrato com a Enscon, por descumprimento
contratual, e realizar uma licitação com ampla concorrência
de modo a melhorar qualidade do serviço e o alto preço da tarifa. Mas ao
contrário, preferiu subsidiar o péssimo serviço prestado pela Enscon, o que tem
lhe causado imenso desgaste. Para quem ainda estava a acreditar que o governo Laércio/2024/Fabrício/Candidato
representava a mudança, está aí o subsídio da Enscon para comprovar o
contrário.
Prefeitura não comunica sobre intervenção no Solar Monlevade
O Conjunto Arquitetônico do Solar Monlevade, que foi a morada
do patrono do Município e sede da Fazenda Carvoeira, Mina e Fábrica de Ferro
Monlevade é tombado para fins de preservação, conforme disposto na respectiva
Lei Orgânica:
Art. 170. Ficam
tombados, para o fim de preservação, e declarados monumentos naturais,
paisagísticos, artísticos ou históricos, sem prejuízo de outros que venham a
ser tombados pelo Município:
[...]
IX - o conjunto arquitetônico original da Fazenda Solar;
Significa dizer que qualquer intervenção que venha a ser
realizada no Conjunto Arquitetônico do Solar Monlevade depende de aprovação prévia
do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico.
Recentemente, como pode ser visto pela foto acima, a Arcelormittal
instalou andaimes, telas e tapumes em volta do Solar Monlevade, de modo a se
concluir que o mesmo sofre algum tipo de intervenção.
Contudo, até o momento, a Prefeitura não comunicou
absolutamente nada a respeito da intervenção ora sofrida pelo Solar Monlevade,
nem sobre a necessária aprovação do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico,
nem sobre o que realmente ocorre naquele que é um dos mais valorosos monumentos
históricos da cidade. E se não houve a devida autorização, a Prefeitura se
encontra de braços cruzados por quê?
Como se vê, a política de preservação do patrimônio histórico
de João Monlevade segue obscura como sempre, o que, sem dúvida, vem alimentando
o absurdo histórico de destruição e de modificação de bens culturais, tristemente,
verificado aos longos das últimas décadas no Município.
segunda-feira, 9 de agosto de 2021
João Antônio de Monlevade: o Pioneiro da Indústria Metalúrgica do Brasil
Jean
Antoine Félix Dissandes de Monlevade (imagem acima) nasceu na região de Guerret, na França, no
ano de 1789. Oriundo de uma família nobre, concluiu o curso de Engenharia de Minas
na Escola Politécnica de Paris, em 1812. A formação de Monlevade não se
limitava, todavia, à engenharia de minas, tendo profundos conhecimentos nas
áreas de literatura, filosofia, ciências naturais, mineralogia, geologia e
metalurgia. Graças a seu talento, foi incorporado ao Corpo de Engenheiros
Militares da França, onde dominou as técnicas de análise química de minerais,
as técnicas metódicas de obtenção do ferro pelo processo catalão e por meio de
alto-forno, as técnicas de obtenção do carvão vegetal pelo sistema de medas, as
técnicas refinadas de forja, solda, laminação, torneamento e moldagem do ferro,
além das de construção civil e mecânica, topografia, etc, etc. Em 1817, Monlevade conseguiu uma permissão do
seu superior para efetuar a viagem ao Brasil, participando de uma comissão do
governo francês, incumbida de estudar os recursos minerais de Minas Gerais,
naquela onda de naturalistas estrangeiros que se seguiu à transferência da
Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro. Monlevade chegou ao Brasil em 14 de maio de
1817. Já em Minas Gerais, João Monlevade visitou minas e jazidas de várias
cidades e vilas mineiras, como as de São João del Rei, Tiradentes, Congonhas,
Ouro Branco, Ouro Preto, Mariana, Sabará, Curral del Rei, Caeté, Santa Bárbara,
Catas Altas, Barão de Cocais, São Gonçalo, São Miguel do Piracicaba, Itabira,
Serro, Antônio Dias, etc, a percorrer
toda a extensão da Serra do Espinhaço, com exceção de Diamantina, sempre realizando
estudos e confeccionado relatórios mineralógicos que eram remetidos para a
Escola Politécnica de Paris. É de Monlevade, por exemplo, o primeiro registro
histórico sobre a imensa riqueza ferrífera de Minas Gerais. Naquele relatório,
Monlevade registrou:
“Na Província de Minas, além de inúmeras
camadas de mineral de ferro, mais ou menos extensas, existem cinco principais
cordilheiras; e pode-se afirmar que uma só delas encerra mais ferro do que
todas as da Europa reunidas, atendendo não somente a sua extensão e poder, como
a riqueza do mineral, o mais rico que se conhece; pois que analisado
quimicamente contem 76 % de seu peso em ferro”.
É
visível que a cada estudo mineralógico que fazia, Monlevade se impressiona mais
e mais pela a imensa riqueza ferrífera de Minas Gerais, o que fez com que ele
buscasse dar utilidade a todo aquele ferro. Monlevade via o ferro como um
agente civilizador. Mais tarde ele profetizaria: “o futuro grandioso desta
terra, hoje tão decadente, não está no ouro, nos diamantes, mas sim no ferro
este grande agente da civilização, como da segurança dos estados, e sem o qual
os países os mais civilizados em poucos anos estariam reduzidos ao estado
selvagem”.
Assim,
em 1818, a inquietude de Monlevade instalou um alto-forno em Caeté, onde produziu
muito ferro moldado na Fazenda do Rio Preto. O estabelecimento metalúrgico só
não prosperou em função da ausência de matas suficientes para o fabrico em
escala do carvão. Desse modo, não foi
correto comemorar os duzentos anos da chegada de Monlevade aonde hoje é o
município homônimo, como fez a Câmara de Vereadores local em 2017, haja vista
que em 1818 Monlevade ainda se encontrava a morar em Caeté, onde foi pioneiro
em proceder à primeira corrida de alto-forno. Contudo, o êxito na fundição do
ferro e na moldagem de vários artefatos úteis em Caeté tornou seu nome
conhecido, sendo o mesmo indicado para orientar a exploração da Galena do
Abaeté, promissora mina de prata e chumbo, onde Monlevade revelou toda sua
inclinação para alquimista, apurando dela pelo processo químico, 9.000 quilos
de chumbo em barras e um botão de finíssima prata. Durante o período em que
trabalhou na Galena de Abaeté, Monlevade conheceu João Batista Ferreira de
Souza Coutinho, o futuro Barão de Catas Altas, com quem manteria estreito laço
de amizade, ninguém menos do que o homem mais rico da região, então
proprietário da fabulosa e quase mitológica Mina de Ouro do Gongo Soco.
Após
sua experiência siderúrgica em Caeté, Monlevade prestou uma série de serviços
para o governo da Província de Minas Gerais, procedendo à análise química da
pureza e à medição quantitativa de várias jazidas minerais e Minas de Ouro.
Então,
em 1826 ocorreu o fato que foi determinante para que Monlevade se tornasse o
maior e mais bem sucedido metalúrgico residente no Brasil durante o sec. XIX: a
fundação da Imperial Brazilian Mining Association, a Companhia Mineradora do
Gongo Soco.
No
segundo quartel do sec. XIX, as minas de ouro superficial, de fácil acesso e
extração, constituídas por depósitos sedimentares das encostas dos morros e das
margens dos ribeiros e até mesmo as encardideiras macias de Ouro Preto, já apresentavam
considerável queda de produção. Contudo, segundo os estudos e as medições
mineralógicas feitas pelo próprio Monlevade, ainda existia muito, muito ouro.
Mas, para extraí-lo seria preciso o emprego de outras técnicas. Era o ouro de
veio, cuja extração demandaria a abertura e o escoramento de galerias
subterrâneas, o emprego do trem de vagonetes sobre trilhos e a utilização do
Engenho Mineiro de Pilões, equipamento mecânico movido por roda d’água, cuja
montagem e manutenção demandariam a produção de muito ferro forjado para triturar
o mineral aurífero. Como também
registraria o próprio Monlevade, em Minas Gerais o ouro ocorre associado ao
minério de ferro e, no caso do ouro de veio, o filão é encontrado entre as
camadas de ferro e a formação de um veeiro de quartzito, que é uma pedra muito
dura. Daí, a necessidade do emprego do Engenho Mineiro de Pilões para triturar
o duríssimo quartzito extraído das galerias subterrâneas, antes da lavagem para
apuração final do ouro. Inaugurava-se assim em Minas Gerais a fase
mecanizada de mineração do ouro, constituída pela fundação de numerosas
companhias mineradoras do ouro, as maiores delas de capital inglês e as mais
famosas as do Gongo Soco e do Morro Velho, e pelo estabelecimento da Fábrica de
Ferro Monlevade. Tratou-se de uma nova era na mineração do ouro, em Minas
Gerais, caracterizada pelo emprego de novas técnicas e equipamentos mecânicos
de mineração, que é considerada pela
historiografia como o alvorecer da indústria mineira. E caberia a Monlevade
produzir o ferro demandado pela mineração mecanizada que então se inaugurava,
sobretudo, as cabeças dos trituradores dos Engenhos Mineiros de Pilões que eram
blocos de ferro forjado de 80 quilos de peso, chamados de mãos de pilão, que
depois de 90 dias de funcionamento contínuo necessitavam ser substituídas por
outras novas, além de peças de ferro muito maiores, de mais de 900 quilos de
peso e todo tipo de ferragem.
Assim,
logo depois de vendida a Mina de Ouro do Gongo Soco pelo Barão de Catas Altas aos
ingleses da Imperial Brazilian Mining Association, Monlevade casou-se, em 4 de
janeiro de 1827, na Matriz de Caeté, com a sobrinha de Catas Altas, Clara
Sophia de Souza Coutinho, com quem teria dois filhos: João Pascoal de Monlevade
e Mariana Sophia de Monlevade.
A experiência siderúrgica anterior de Monlevade em Minas Gerais, obtida na Fazenda do Rio Preto, em Caeté, o ensinara que para fundar a Fábrica de Ferro capaz de produzir peças em escala suficiente para atender a fase da mineração mecanizada que se iniciava seria necessário o fabrico diário de grande quantidade de carvão, o que não fora possível de se concretizar em Caeté devido a ausência de matas em abundância para tal naquela localidade. Monlevade também sabia que para atender àquela nova demanda por ferro necessitaria também importar da Inglaterra pesado equipamento industrial, cujo transporte para o interior de Minas Gerais só seria possível por meio de navegação pelos rios Doce e Piracicaba. Assim, o local escolhido por Monlevade, que já havia percorrido toda a Serra do Espinhaço, para instalar sua Fábrica de Ferro deveria conjugar os fatores seguintes: ocorrência de matas suficientes para a produção em escala do carvão vegetal; acesso ao Rio Piracicaba para transporte dos equipamentos industriais; situar-se numa das cordilheiras de ferro descritas por Monlevade; potencial hidráulico para fornecer a força motriz dos equipamentos da fábrica e pouca distância do Gongo Soco, etc. O local escolhido que reunia todos aqueles fatores acabou situado na margem esquerda do Rio Piracicaba, a poucos quilômetros de São Miguel, onde Monlevade já havia realizado estudos mineralógicos e hoje é o município homônimo.
Então, em 1827, 10 anos após sua chegada ao Brasil é que Monlevade veio a fixar-se no local, onde a seria o município que leva o seu nome, dando início à construção do Solar Monlevade (foto acima), imponente sobrado de quatro faces que seria sua morada, até o dia de sua morte, aos 83 anos de idade, e a sede administrativa da Fazenda Carvoeira, Mina e Fábrica de Ferro Monlevade, por mais de um século. Naquele mesmo ano, também teve início a um dos episódios mais extraordinários da obra metalúrgica de Monlevade no Brasil: o transporte das pesadas máquinas, importadas da Inglaterra e necessárias para o estabelecimento de sua Fábrica de Ferro.
A
Expedição Monlevade (mapa) rio acima transportou 7.500 quilos de carga, abrangeu 3 estados
brasileiros, totalizou 1.100 quilometros percorridos, 7 meses de viagem e foi
tripulada uma centena de índios guerreiros da nação Krenak. Chegou exitosa ao
local escolhido para estabelecer a Fábrica de Ferro, em 8 de abril de 1828.
A
partir daí, Monlevade deu início à fundação do estabelecimento metalúrgico que
se consagraria como a principal Fábrica de Ferro a funcionar durante o Império
Brasileiro, tornado-se o fornecedor preferencial de artefatos de ferro para as
Companhias Mineradoras do Ouro. Sua Fábrica de ferro não foi a primeira do
Brasil e não era a única, mas foi a pioneira em contar com a divisão do
trabalho e a produzir em escala industrial carvão, ferro e artefatos forjados.
Também foi pioneira em produzir peças de ferro forjado de quase uma tonelada de
peso, as maiores até então já forjadas no Brasil e em transportá-las até seus
clientes, alguns a mais de 120 quilômetros de distância como a Mina do Morro
Velho, em Nova Lima.
Monlevade
é considerado pela historiografia como maior construtor de estradas carroçáveis
em Minas Gerais no sec. XIX, muitas
delas dotadas de pontes. Do Solar Monlevade partiam 6 ramos de estradas
carroçáveis ligando a Fábrica de Ferro a seus clientes e mercados consumidores.
Ainda hoje elas são utilizadas pelo modal rodoviário local, compondo uma rede
de caminhos que se integram de maneira muito especial à Estrada Real, já que
por eles eram escoadas peças de ferro para a mineração do ouro, podendo ser
considerada o circuito da Estrada Imperial do Ferro. O traçado da principal
avenida do Município, a Getúlio Vargas, coincide com o percurso da estrada por
onde transitavam os carretões de quatro rodas de Monlevade, puxados por muitas
juntas de bois, que escoavam a produção da fábrica e por onde também
transitavam muitas tropas que mantinham negócios com o estabelecimento ou vinham,
simplesmente, atravessar as pontes mantidas por Monlevade sobre os rios
Piracicaba e Santa Bárbara ou chegavam para comprar ferraduras, cravos e
ferramentas pela ferrar. Monlevade foi a Meca dos Tropeiros (vide ).
Na verdade, aquela espécie de slogan que nos ensinaram nos bancos escolares como “uma pequena forja catalã, fabriqueta de enxadas” jamais existiu. De fato, sob o ponto da estrutura do estabelecimento, existiram 3 fábricas de ferro Monlevade e não apenas uma. A Fábrica Velha, que funcionou de 1828 a 1853. A Fábrica Nova que funcionou de 1853 a 1888 e a Fábrica de Francisco Monlevade, que funcionou de 1891 em diante. As duas primeiras se localizavam abaixo do Solar Monlevade, onde hoje é Rua dos Contratados. Delas só restaram poucas ruínas. A terceira funcionou onde hoje é o Bairro Jacuí. Ela ainda está de pé e foi adaptada para funcionar atualmente como uma hidrelétrica. A fábrica também não era catalã. As máquinas para a Fábrica de Ferro Monlevade não foram importadas da Catalunha, mas sim da Inglaterra, como já descrito acima. O mesmo maquinário foi utilizado para equipar a segunda Fábrica de Ferro. E a Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade, no Jacuí, foi equipada com maquinário estadunidense e frances. Catalão era apenas o processo de obtenção do ferro, que produzia um metal puro de extrema qualidade e pouco quebradiço. Também não era a enxada o principal produto da Fábrica de Ferro. Monlevade produzia enxadas e tudo mais que fosse possível se fabricar em ferro forjado naqueles idos, contudo seu principal produto eram as cabeças dos trituradores dos Engenhos Mineiros de Pilões que eram blocos de ferro forjado de 80 quilos de pesos cada. O estabelecimento também não era nada pequeno. A primeira Fábrica de Ferro Monlevade produzia quase 500 quilos de ferro e 6.000 quilos de carvão diariamente, contava com seis fornos de fundir ferro, de 80 quilos cada um, e quatro tendas de ferreiros. Utilizava as águas do Ribeirão Carneirinhos, etc, para girar duas poderosas rodas hidráulicas que moviam os 3 grandes martelos de forja. A água do Ribeirão Carneirinhos, etc, também impulsionava o vento dos ventiladores das fornalhas. Contava ainda com 150 escravos e outros 50 colaboradores diretos. Durante o longo tempo em que funcionou, foi a primeira e a única a fabricar peças de ferro forjado de uma tonelada de peso, as maiores produzidas no Brasil até então. Assim, é preciso passar uma borracha sobre o estigma de “uma pequena forja catalã, fabriqueta de enxadas”, eis que na verdade o estabelecimento metalúrgico de Monlevade foi a maior e mais importante Fábrica de Ferro a funcionar no Brasil Império, fornecedora preferencial de artefatos de ferro das Companhias Mineradoras do Ouro, estando inserido diretamente no circuito da Estrada Real.
O
maior cliente da Fábrica de Ferro Monlevade foi, sem dúvida, a Mina de Ouro do
Gongo Soco. De 1826 a 1856, com os artefatos de ferro produzidos por Monlevade,
o Congo Soco produziu nada menos do que
27.887 quilos de ouro puro, algo sem precedente ou paralelo no mundo,
tornado-o a mina aurífera que mais produziu ouro na história da humanidade. E
parte deste ouro coube a Monlevade, fazendo dele uma das maiores fortunas de
Minas Gerais no sec. XIX. Certamente que “uma pequena forja catalã”, não faria
de Monlevade uma das maiores fortunas de Minas em seu tempo.
Então,
também não é verdade aquilo que nos ensinaram nos bancos escolares no sentido
de que o ciclo da mineração do ouro em Minas Gerais durou apenas o sec. XVIII.
A Mina do Gongo Soco, por exemplo, foi a maior Mina de Ouro da história da humanidade
no sec. XIX. O Morro Velho segue em funcionamento até os dias atuais.
Além das cabeças dos trituradores dos engenhos mineiros de pilões, que eram o principal produto da Fábrica de Ferro, Monlevade também produzia aguilhões, bigornas, engenhos de serrar madeira, moendas para espremer cana de açúcar, etc.
A
imagem de Monlevade também sempre esteve muito associada aos engenhos
hidráulicos, rodas d’água que movimentavam uma diversidade de máquinas. E a
principal delas era o Engenho Mineiro de Pilões (foto acima), equipamento mecânico muito
difundido na região que contava com um grande número deles em funcionamento e
cuja ferragem não apenas era produzida em Monlevade, como também era ele quem
fornecia a assistência técnica para mantê-los em operação.
Monlevade
foi a maior autoridade metalúrgica e mineralógica do Brasil durante o sec.
XIX. Tanto foi assim que ele era
comumente conhecido como Capitão Monlevade e pouco depois de sua morte em 1872,
a lacuna deixada por este competente metalurgista fez necessária a criação da
Escola de Minas de Ouro Preto que, inclusive, tentou adquirir os registros e a
Biblioteca que Monlevade colacionou durante o longo tempo em que viveu no
Brasil.
Outra
característica marcante de Monlevade era sua inclinação para viajante. Antes de
se fixar a pouca distancia de São Miguel, Monlevade já havia viajado por toda
Minas Gerais, com exceção do Distrito Diamantino do Tijuco. E depois de se
fixar, Monlevade jamais parou de viajar. Estava sempre em viagem para manter em
bom estado as estradas carroçáveis que abria e mantinha e para prestar
assistência técnica às Companhias Mineradoras do Ouro.
Monlevade
foi um exemplo perfeito de completa adaptação ao Brasil. Ele aportuguesou o próprio nome, de “Jean
Antoine Félix Dissandes de Monlevade”, passando a assinar “João Antônio de
Monlevade”. Adotou o Português como língua. Trocou a dieta européia a base de
trigo pelo feijão, pela mandioca e pelo milho. Casou-se com uma brasileira e viveu
até seu último dia no Brasil, onde foi sepultado. Foi o primeiro a produzir e a forjar em escala
o ferro brasileiro.
A
fase da mineração mecanizada do ouro, tecnicamente, viabilizada, por João
Monlevade deixou uma marca tão indelével na construção da identidade regional
que ainda hoje a herança daqueles idos pode ser observada no jeito de falar do
mineiro. Nas maiores companhias de mineração, como o Gongo Soco e o Morro Velho,
que pertenciam aos ingleses, falava-se apenas o inglês. A convivência com os
ingleses das companhias mineradoras fez com que o mineiro incorporasse em seu
vocabulário uma série de vocábulos de origem inglesa, que tornaram seu jeito de
falar muito típico. Manter o processo de mecanização sempre funcionando não era
tarefa fácil. Qualquer interrupção no processo mecanizado era imediatamente
acompanhada de uma cobrança por parte do patrão inglês, que exigia saber o
porquê do ocorrido. Então o inglês indagava ao mineiro o tempo todo: “why (?)”,
que é a tradução de “por que (?)”. Daí a origem da interjeição “uai”, tão
utilizada pelo mineiro para exprimir surpresa, espanto ou dúvida. “Sô”, que em
Minas é utilizado como pronome de tratamento e “trem”, que é utilizado pelos
mineiros como sinônimo de qualquer coisa, também são originários do convívio
dos mineiros com os ingleses nas companhias mineradoras do ouro. “Trem” é
referente ao “train” de vagonetes, sob trilhos, que eram empregados nas
companhias mineradoras para extrair o minério aurífero das galerias
subterrâneas; “sô” é a adaptação do vocábulo “sir”, que era como os ingleses
eram tratados nas companhias. E “ué”, que é utilizado pelo mineiro para
expressar desorientação geográfica, tem sua origem no inglês, “where”, cuja
tradução é “onde (?)”.
Das
duas primeiras Fábricas de Ferro Monlevade existem hoje apenas ruínas. Contudo
ainda há uma Fábrica de Ferro Monlevade de pé (foto acima).
Depois
de abolida a escravidão no Brasil em 1888, Monlevade já havia falecido há 16
anos e coube a seu neto, o engenheiro Francisco Monlevade, filho de João
Pascoal Monlevade, reajustar o estabelecimento à
nova ordem econômica e aos ventos da Revolução Industrial. Sem contar com o
capital necessário para modernizar a indústria do avô segundo as exigências da
época, Francisco Monlevade vendeu a propriedade à Companhia Nacional de Forjas
e Estaleiros do Barão de Mauá, por 1 mil contos de réis, mediante a condição de
permanecer à frente da administração do estabelecimento. Nesta terceira fase do
empreendimento, foi completamente abandonado o antigo local, abaixo do Solar
Monlevade, estabelecendo-se a casa da nova oficina na margem esquerda do Rio
Piracicaba (foto acima), abaixo do que é hoje a Represa do Jacuí. Neste período, a Fábrica
de Ferro Monlevade foi, integralmente, submetida aos efeitos da Revolução
Industrial, sendo equipada com uma série de maquinismos impressionantes, entres
os quais se destacam o Martelo-Vapor estadunidense (foto abaixo) e a Turbina Hidráulica
francesa de 600 cavalos. Quase todo o acervo do Museu Monlevade é, atualmente,
composto pelas máquinas da Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade, que
produzia 4 vezes mais ferro do que as duas primeiras do avô. E o mais
interessante é que o prédio que abrigou a Fábrica de Ferro de Francisco
Monlevade ainda existe e, atualmente, alberga a casa de máquinas da Represa do
Jacuí, no bairro de mesmo nome.
Por fim, tema que não pode deixar de ser abordado, quando se
discorre sobre Monlevade é a escravidão, principalmente, depois de incendiarem
a estátua do bandeirante Borba Gato.
Como mineiro, não me cabe a defesa de nenhum bandeirante. O maior feito
realizado pelos bandeirantes foi a descoberta das Minas de Ouro. Aliás, as
Minas de Ouro foram descobertas dentro do próprio território da Capitania de
São Paulo que era imenso e se entendia de Santa Catarina até o Mato Grosso.
Depois de descoberto o ouro, os bandeirantes paulistas intentaram em manter
para si o monopólio do controle e da exploração das minas. Eles então
provocaram a Guerra dos Emboabas, perderam o conflito e foram expulsos das
Minas de Ouro. As Minas de Ouro então se separaram da Capitania de São Paulo e
foi fundada a Capitania de Minas Gerais. Donde se conclui que bandeirante bom é
bandeirante expulso de Minas Gerais. Contudo, Borba Gato era traficante de
escravos, coisa que Monlevade jamais foi.
Monlevade foi um empreendedor do ramo mineral e metalúrgico e como qualquer
empreendedor no Brasil até 1888, formou e utilizou mão de obra escrava. Se
tivermos de queimar, de apagar ou de desconsiderar a história em função da
escravidão, teremos de desconsiderar Roma, o Egito, a Babilônia e toda a
história do Brasil até 1888, o que não podemos fazê-lo, sem imenso prejuízo ao
conhecimento histórico e a construção de nossa identidade brasileira. O período
mais importante da história do Brasil foi justamente aquele em que houve
escravidão. Não podemos apagá-lo ou queimá-lo.
O que temos de queimar é a cara de vergonha para encararmos o pesado
legado deixado por uma escravidão abolida apenas no papel, cujos descendentes
ainda têm a força de trabalho explorada no Brasil, tal qual como antes.
terça-feira, 27 de julho de 2021
O Brasil não Pode Perder a Oportunidade Histórica Representada por Bolsonaro
Imagem:https://blogdopaulinho.com.br/2018/10/23/o-dna-nazista-de-jair-bolsonaro-avo-do-candidato-foi-soldado-de-hitler/
Em se tratando de
política, o Brasil é mestre em perder oportunidades históricas.
Em 1888, a Monarquia
decretou a abolição da Escravatura no Brasil. Antes que ela pudesse proceder à
concessão de bens e direitos aos cativos então libertados, a elite brasileira
procedeu a um golpe militar e expulsou do Brasil a redentora princesa Isabel e
seu pai, o imperador Pedro II, ambos brasileiros nascidos no Palácio São
Cristóvão, no Rio de Janeiro, foram expulsos do país para que a reforma agrária
não fosse efetivada entre os ex-escravos. O Brasil, então, viveu mais de três
décadas de uma oligarquia desumana e racista a que se chamou de “República do
Café com Leite”e que foi responsável pela origem das favelas, a mais grave
questão social brasileira.
Em 1930, Getúlio
Vargas acendeu ao poder. Vargas fez muito pelo Brasil, mas não fez a reforma
agrária que Pedro II fora impedido de fazer. Deixou a Presidência da República
morto.
Em 1964, o
presidente João Goulart anunciou que faria a reforma agrária, a reforma
política, a reforma dos meios de comunicação, a reforma tributária, a reforma
educacional, etc. A mesma elite brasileira procedeu ao mesmo golpe militar,
impedindo Goulart de efetivar as reformas anunciadas e, igualmente,
expulsando-o do país. O Brasil, então viveu mais de duas décadas de um violento
e tortuoso regime militar que apenas agravou as questões socais do país.
Em 1988, o Brasil se
redemocratizou do Golpe de 64, mas não puniu os assassinos, os torturadores e
os sabotadores da ditadura. Também não colocou em prática as reformas de base
anunciadas por João Goulart. Ora, se o Golpe de 64 se deu como forma de impedir
as reformas anunciadas por Goulart, a
redemocratização em 1988 não poderia acontecer sem a implementação de tais
reformas, o que também não foi feito.
Em 2002, Lula foi
eleito presidente do Brasil. Lula também fez muito pelo país, principalmente
instituiu o regime de cotas nas universidades públicas e distribuiu uma parte
ínfima da renda nacional entre aqueles que se encontravam excluídos nas favelas,
desde a República Velha do Café com Leite. Mas, não realizou a reforma agrária
que Pedro II fora impedido de fazer, nem as Reformas de Base que João Goulart.
Em 2014, Dona Dilma
foi eleita presidente da República. O Brasil, então, se tornara um dos maiores
mercados mundiais de automóveis, computadores, celulares, eletro-eletronicos,
etc, chegou ao posto de 6ª economia mundial, ultrapassando a Inglaterra. Mas, a Dona Dilma não realizou a reforma
agrária que Pedro II fora impedido de fazer, nem as Reformas de Base de João
Goulart. Então, aqueles que deram o Golpe de 64 e nunca foram punidos, reincidiram
na conduta e depuseram a presidente.
O impeachment de
Dilma conduziu à eleição de Bolsonaro e o desastre do bolsonarismo representa
um grande momento histórico para o Brasil reorganizar-se enquanto país e não
deixar de proceder às reformas institucionais, cujas oportunidades históricas
de realização foram se perdendo ao longo da história, entre golpes. Tudo o que
hoje instrui o bolsonarismo era velado no Brasil até a sua eleição: o racismo,
o fascismo, o negacionismo, o terraplanismo, etc. Agora,
em meio ao bolsonarismo, as pessoas, sobretudo a classe-média brasileira, são
declaradamente racistas, fascistas, negacionistas e terraplanistas. Isto é,
agora, quando tudo o que, veladamente, instruía a sociedade brasileira vem à
tona, temos a oportunidade histórica para tratá-lo. E fascismo se trata com formação humanista e
filosófica. É hora de o Brasil adotar um novo modelo de formação de seu povo,
uma nova escola que prepare o cidadão para o convívio humano e o ensine a
pensar.
O bolsonarismo
também representa o saudosismo ao militarismo de 64, é em grande parte composto
por aquelas viúvas convenientes da ditadura que alegam que o golpe foi bom para
o Brasil. Não existe golpe sobre uma democracia que possa ser considerado bom.
Todo golpe desferido contra a democracia é algo errado e antiético. No Brasil,
muitos consideram o contrário porque os ditadores brasileiros jamais foram
punidos e nunca se revelaram todos os atos de assassinato, tortura e sabotagem
cometidos pelo regime militar. Eu por exemplo, tenho a convicção de que quem
colocou fogo no Colégio do Caraça em maio de 1968 foi a ditadura militar
brasileira. Não é por menos que o humanismo que era lecionado no Caraça pode
ser considerado ainda hoje a antítese perfeita ao bolsonarimo vigente. Então,
caberá ao próximo presidente da República punir os ditadores do regime militar
e revelar tudo o que aconteceu naquele período para resolver de vez o engodo do
“bom militarismo” no Brasil e para também dissuadir a elite a praticar golpes
contra o país. Será que existe alguma dúvida de que enquanto os golpistas não
forem punidos exemplarmente, eles não deixarão de dar golpes?
Outra oportunidade
criada pela tragédia do bolsonarimo é que com ela se abre mais uma janela histórica
para o Brasil realizar as reformas de base de João Goulart. Veja como estamos atrasados. Em 1964, Goulart
anunciou que realizaria as Reformas de Base. A elite então deu um golpe,
impedindo-o de fazê-lo, como já mencionado. Ocorre que passados longos 57 anos
do Golpe Militar, o Brasil ainda não promoveu as Reformas de Base de João
Goulart. Donde, se conclui que o dito golpe atrasou, institucionalmente, o
Brasil, até o momento, em 57 anos. Então, o próximo presidente da República
terá de realizar as Reformas de Base de João Goulart. Não digo nem a Reforma
Agrária, que é algo tão utópico no Brasil, pelo menos, a Reforma Política e a
Reforma dos Meios de Comunicação.
quinta-feira, 22 de julho de 2021
O Martelo-Vapor de João Monlevade
O Martelo-Vapor de Monlevade, peça histórica de valor
inestimável, desconhecida de quase a totalidade dos munícipes, encontra-se hoje
exposto no Museu do Aço e do Ferro mantido pela Arcelormittal.
Ele foi fabricado na Filadélfia, EUA, provavelmente em 1890 e
é resultado de um grande investimento realizado pela Companhia Nacional de Forjas
e Estaleiros na metalurgia local a partir de 1891, quando a Fábrica de Ferro
Monlevade passou por uma completa transformação estrutural, a cargo do
engenheiro Francisco Monlevade, neto do patrono do Município. Abandonou-se o
local onde funcionaram as duas primeiras Fábricas de Ferro, que utilizavam a
água do Córrego Carneirinhos, etc, para mover os primeiros martelos de forja,
laminadores, etc e se localizavam onde hoje é a Rua dos Contratados, logo
abaixo do Solar Monlevade, e foi construída uma imponente e, incrivelmente,
moderna oficina, onde hoje é o Bairro Jacuí, na margem esquerda do Rio
Piracicaba, cujas águas passaram a ser empregadas no processo produtivo da
metalurgia local, não apenas para abastecimento da caldeira das máquinas a
vapor, como também para gerar a força motriz de uma série de outros
maquinismos. O Martelo-Vapor de Monlevade é de duplo efeito, isto é, seu
poderoso pistão a vapor tanto impulsiona o levantamento do malho como o impele
para baixo, aumentando consideravelmente seu golpeamento de forja. O peso de
seu malho é de 1,5 tonelada. O curso de malho é de um metro. Além de esbravejar
e bufar, o Martelo-Vapor ainda apitava como uma locomotiva. Há registros de que
as duas primeiras Fábricas de Ferro Monlevade produziam e entregavam peças de
ferro de mais de 900 quilos de peso para as Minas de Ouro do Gongo Soco e do
Morro Velho. Um Martelo-Vapor equipado
com malho de uma tonelada e meia atesta que a Fábrica de Ferro de Francisco
Monlevade se encontrava apta a produzir peças de ferro ainda maiores, também
para atender ao setor da mineração do ouro.
Outro fato muito relevante sobre o Martelo-Vapor de Monlevade
é que o equipamento, tecnicamente, estabeleceu o fim da escravidão na
metalurgia local. Durante 60 anos, as duas primeiras Fábricas de Ferro
Monlevade funcionaram mediante o emprego de mão de obra escrava. Em 1853,
quando se preparava para desativar a Fábrica Velha, que já havia funcionado por
25 anos, e se organizava para iniciar o funcionamento da Fábrica Nova,
Monlevade registrou que seu estabelecimento industrial contava com 150 escravos,
treinados por ele próprio, entre eles, ótimos mineiros, forneiros, ferreiros,
carvoeiros, carreiros, pedreiros, marceneiros, telheiros, arrieiros, etc. Durante
toda a história antiga da humanidade houve escravidão. Trabalho remunerado é coisa
da modernidade, que se inaugura, justamente, com o advento da máquina a vapor. É
um absurdo, mas significa dizer que foi o advento tecnológico da máquina a
vapor que, tecnicamente, viabilizou o fim da escravidão. E é o que também
representa, localmente, o Martelo-Vapor de Monlevade: o fim da escravidão. Veja
que em 1891, ou seja, apenas 03 anos após a Abolição da Escravatura, a Companhia
Nacional de Forjas e Estaleiros já inicia os investimentos para a modernização
da metalurgia local, o que engloba a aquisição, o transporte e a instalação do
Martelo-Vapor, etc, na Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade, que, ao
contrário das duas primeiras fábricas da Família Monlevade, passa a empregar
mão de obra assalariada, ao invés de escravizada.
Como se vê, apesar de quase totalmente desconhecido dos
munícipes, o Martelo-Vapor de Monlevade, atualmente, exposto no Museu do Aço e
do Ferro possui imensa relevância histórica para o processo tecnológico que
colocou, tecnicamente, um fim na escravidão local, tratando-se ainda, de único
do gênero em Minas Gerais, possivelmente a primeira máquina a vapor a forjar peças a partir do ferro brasileiro, aparato de desenho arrojado e funcionamento curioso,
que, caso venha ser restaurado e reabilitado para demonstrações de
funcionamento no Museu, pode atrair muitos turistas para o Município, com suas
bufadas de vapor, os golpes de estremecer o chão e seu apito rouco-estridente,
que outrora ecoou pelo Vale do Rio Piracicaba. Ou simplesmente, pode inspirar as
novas gerações, como mais um símbolo do Município a representar o advento
tecnológico, suas transformações e a evolução do pensamento.
quinta-feira, 15 de julho de 2021
A Procuradoria da Mulher e o que Prandini fez na Prefeitura
Recentemente, escrevi que qualquer discurso que o vereador Gustavo Prandini adotasse no Legislativo seria totalmente incoerente com tudo aquilo que ele fez ou deixou de fazer quando foi prefeito.
Tramita na Câmara Municipal de João Monlevade o projeto de lei que pretende criar a Procuradoria da Mulher. Segundo o autor da proposição, o ex-prefeito Gustavo Prandini, recém retornado do exílio de 10 anos em Juiz de Fora, a medida representa “compromisso na pauta dos direitos das mulheres, na luta contra desigualdade, violência e, sobretudo, pela valorização e respeito pelo o que já é previsto na Constituição”.
Todos se recordam que logo após assumir o mandato como chefe do Executivo, Prandini passou a perseguir grande parte do grupo que o havia eleito prefeito. Foi um festival de danças de cadeiras. No grupo também havia mulheres. Lembro-me como se fosse ontem que, neste contexto, Prandini intentou demitir uma de suas apoiadoras, que então trabalhava no setor de Compras Licitações da Prefeitura, mas não logrou êxito, pois a mesma se encontrava grávida e, diante da lei trabalhista, a gestante não pode ser demitida Prandini, então, ordenou que a gestante fosse transferida do setor de licitações para o Cemitério do Baú e Curral Municipal. Dois meses depois, Prandini a transferiu para Viveiro Municipal. As transferências só cessaram quando eu pessoalmente protocolei um atestado médico junto ao RH da Prefeitura, indicando que a gestante apresentava gravidez gemelar de risco e não poderia ser transferida para lugares ermos, onde não houvesse pronto atendimento médico, se necessário. Prandini então transferiu a gestante para a Fito Verde, onde a mesma ficou até o parto, sendo demitida pelo prefeito após cumprida a licença maternidade. Não por coincidência, a gestante deu a luz a duas meninas saudáveis, que também se tornarão mulheres. E este é o meu testemunho do que Prandini fez em prol das mulheres quando foi prefeito.
terça-feira, 13 de julho de 2021
Tapa-Buracos mudou? Piorou!
Recentemente, o governo Laércio/2024/Fabrício/Candidato
anunciou que contratara empreiteira para prestar o serviço de tapa-buraco nas
vias de João Monlevade.
A se tratar de administração do PT e considerando a profunda
crise econômica e o alto desemprego por que passa o país, o que se esperava era
a reativação da Frente de Trabalho para realizar serviços congêneres do
Município. Ou, no mínimo, que os servidores concursados do DVO realizassem tal
serviço. Mas, não foi o que aconteceu. O governo saiu logo contratando uma
empreiteira, o que foi uma característica marcante da administração
Simone/Fabrício. Durante a última administração muitos serviços que, outrora,
eram prestados por servidores concursados do DVO, passaram a ser executados por
empreiteiras, que, na maioria dos casos, não entregam o serviço a contento. Ao
contrário, elas passam a ser quase a razão de ser da administração pública,
faturando elevadas somas e prestando o serviço como lhes for mais conveniente e
lucrativo.
E ao que se vê, nada mudou. O servidor concursado segue
preterido no momento de prestar o serviço público para o qual passou no
concurso e as empreiteiras seguem lucrando horrores e executando o serviço como
lhes convém. É o caso da nova empreiteira contratada para a operação
tapa-buracos. Veja pelas fotos que, primeiro a empreiteira realiza o
enquadramento do buraco com um corte poligonal, aumentando seu tamanho e sua
profundidade, o que é correto. Logo após, ela deveria realizar o pertencimento
do mesmo com massa asfaltica e proceder à sua compactação. Mas, não é o que tem acontecido. Ocorre que a
empreiteira promove o corte do buraco e não o repara com asfalto, imediatamente.
Ela faz o corte e só volta para reparar o buraco depois de muitos dias,
deixando para o motorista monlevadense o ônus de ter que desviar de buracos
ainda maiores e mais profundos do que os originais. E por que a empreiteira
procede desta maneira? Porque assim lhe é mais lucrativo! Tivesse que proceder
ao imediato reparo do buraco, ela teria que operar com duas turmas,
simultaneamente, a de corte e do reparo. Agindo como tem feito, a empreiteira
emprega apenas uma turma para fazer o corte e o aprofundamento do buraco e,
depois de muitos dias, ela volta com a mesma turma para realizar o reparo. É a
metade do custo de mão de obra. Mudou
alguma coisa no governo? Só se for para pior.
sexta-feira, 2 de julho de 2021
Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade somou-se à vocação siderúrgica local para fundar a Belgo-Mineira
Quando o engenheiro luxemburguês Gastão Barbanson decidiu por estabelecer a grande siderurgia na localidade que viria a se tornar o Município de João Monlevade, ele o fizera, sobretudo, em razão da sólida vocação siderúrgica já consolidada no local desde os tempos da Fábrica de Ferro Monlevade. Aqui, Barbanson encontrou o puríssimo minério de ferro da Mina do Andrade, vastas matas para o fabrico do carvão, grande suprimento de água do Rio Piracicaba e o ramal ferroviário da Central do Brasil, então, recém instalado. Contudo, faltava outro elemento crucial para a instalação de uma grande siderúrgica, verdadeiramente, moderna, típica do período entre guerras: a energia elétrica. É preciso relembrar que corria o ano de 1935 e a Cemig só viria a ser fundada em 1952. Ainda não existia rede de geração e de transmissão de energia elétrica como hoje. Seria necessário, então, produzir a eletricidade em Monlevade. E foi neste ponto que outra importante vocação industrial local se manifestou para a instalação da Companhia Siderúrgica Belo-Mineira, o Edifício da Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros que abrigara a Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade.
Ao aqui chegar para instalar a planta da Belo-Mineira, Gastão Barbanson encontrou de pé não apenas o Solar Monlevade, que havia sido morada e sede administrativa da Fábrica de Ferro homônima (1828), como também o edifício que mais tarde abrigara a Fábrica de Francisco Monlevade, construído pela Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros, a partir de 1891. Como já se tratava de edifício, imensamente, sólido, moderno e, especialmente, construído para aproveitar, industrialmente, o potencial hidráulico do Rio Piracicaba, a Belgo-Mineira viu a oportunidade ideal para nele instalar a casa de máquinas da tão necessária hidrelétrica, cuja represa foi levantada pouco mais acima, no Jacuí. O edifício da Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros representou meio caminho andado para a Belo-Mineira instalar sua tão indispensável usina de força elétrica e ao lado das demais vocações siderúrgicas locais, certamente, teve seu peso na decisão da escolha de Monlevade como a localidade onde se deveria estabelecer a grande siderúrgica a partir de 1935.
O minerálogo e metalúrgico frances João Antonio de Monlevade casou-se em 1817 na Matriz de Caeté com Clara Sophia de Souza Coutinho, sobrinha do Barão de Catas Altas, e teve com ela dois filhos, João Pascoal e Mariana Sophia. Mariana viajou para França depois de casar-se e faleceu na Europa pouco depois. João Pascoal jamais herdou a veia metalúrgica do pai. Registros históricos revelam que João Pascoal dedicou-se a atividades voltadas para o setor da saúde, apesar de nunca ter se formado médico. João Pascoal casou-se com Mariana Perpétua Paes Lemes, com quem teve dois filhos, João e Francisco Monlevade.
Francisco Monlevade, este sim, herdou a veia metalúrgica do avô e formou-se engenheiro, dando continuidade à atividade metalúrgica. Décadas depois da morte do avô, Francisco Monlevade reestruturou todo o empreendimento metalúrgico da família, associando-se à famosa Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros do Barão de Mauá, que investiu fabulosa soma na construção do novo edifício e na aquisição de equipamentos industriais importados como o martelo-vapor estadunidense e a turbina hidráulica francesa de 600 cavalos, etc, que se encontram hoje no Museu.
O edifício da Hidrelétrica do Jacuí agrega imensurável valor histórico-cultural para o gentílico monlevadense porque foi construído a partir de 1891 pela Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros, sendo o único do gênero em Minas Gerais; porque foi nele que funcionou a terceira Fábrica de Ferro da Família Monlevade, sendo a última ainda de pé e porque foi através dele que se gerou a primeira energia elétrica que iluminou a Vila Operária de Louis Ensch e movimentou todo tipo de equipamento elétrico-industrial, inclusive locomotivas, para o funcionamento da primeira siderúrgica integrada da América Latina, a Belgo-Mineira.
Na verdade, o Edifício da Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros de João Monlevade, localizado no Bairro Jacuí (fotos), segue a gerar energia elétrica para a atividade da siderúrgica local. Certamente, é um dos prédios industriais mais antigos em funcionamento no Brasil. Apesar de sua importância histórica, não se encontra aberto à visitação.
















