terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O que Lula fará com o monopólio da Rede Globo?


Foto/Montagem: https://pleno.news/brasil/politica-nacional/lula-critica-globo-e-emissora-responde-o-ex-presidente-esta-errado.html

Lula aparece nas pesquisas como favorito dentre as candidaturas apresentadas para as eleições presidenciais de 2022. Mas, e se ele for eleito presidente, o que será do monopólio de mídia da Rede Globo? Pois ficou muito claro que foi a Rede Globo quem conduziu todo o processo que levou o Brasil para a beira do abismo em que ele se encontra hoje. Foi a Globo que inventou o herói Sergio Moro. Foi a Globo que projetou a Lava Jato. E foi a Globo que conduziu o impeachment da Dilma e fomentou pela prisão de Lula, que resultaram na eleição de Bolsonaro e na ascensão do fascismo tupiniquim. Porque, se nada for feito, mais cedo ou mais tarde, a Globo fará tudo de novo.

O assunto é pouquíssimo debatido no Brasil, mas o modelo de mídia televisivo brasileiro é um monopólio dissimulado da Rede Globo. É o que explica, por exemplo, o vencedor de um “reality show” se transformar, instantaneamente, numa celebridade. Nos modelos de mídia democráticos, isto não acontece. O telespectador costuma achar que, dentro do sistema de mídia televisivo brasileiro formado, basicamente, por quatro televisões, Globo, SBT, Record e Bandeirantes, existe concorrência entre elas. Não é verdade. O sistema brasileiro é formado por uma grande TV, que é a Rede Globo, e por outras três TVs de médio porte, o SBT, a Record e a Bandeirantes. As médias até chegam a concorrer entre si, mas nenhuma delas concorre com a Rede Globo, que sem fazer esforço, detém 70% do faturamento da TV brasileira. E isto ocorre não porque a Globo seja mais competente ou tenha mais qualidade, mas sim porque o sistema foi desenhado desta forma. Nos EUA, por exemplo, são quatro as grandes TVs e não apenas uma como no Brasil. Na verdade, as outras três TVs, SBT, Record e Bandeirantes apenas existem para enriquecer as famílias que as controlam e para dissimular que o sistema não é, de fato, um monopólio da Rede Globo, porque se a Globo figurasse sozinha como a única TV do país, o monopólio ficaria muito explicito. Veja, por exemplo, que o proprietário do SBT também é banqueiro, comerciante, etc, e utiliza, descaradamente, sua concessão de TV para vender seus produtos financeiros, etc. Situação que é completamente antiética porque quem recebe uma concessão pública de teledifusão não pode utilizá-la em benefício próprio para se enriquecer no comércio ou no setor financeiro.  E o telespectador, iludido, ainda reconhece nele grande mérito empresarial. Ora, se você tiver um canal de TV para vender os produtos de suas empresas, você também se tornará um multimilionário. A Record, por sua vez, é de propriedade de pastores que a utilizam para cobrar o dízimo e para vender uma série de objetos ungidos. A Bandeirantes é muito focada no futebol. E não se engane, o Brasil só é o país do futebol porque o futebol é o tema mais pautado pela TV.  Veja ainda que das quatro TVs brasileiras, nenhuma tem em sua grade de exibição um programa sério para discutir política, o que demonstra o quão conservador é o atual modelo. E o Brasil precisa mudar. Se a Globo, por exemplo, tivesse um programa sério para discutir as questões políticas do Brasil, certamente, já teríamos resolvidos muitos de nossos problemas, assim como nos tornamos o país do futebol. Aliás, das quatro maiores TVs do mundo – as três maiores são estadunidenses - a Globo é a única que, vergonhosamente, não discute política em sua programação.  Uma analise da grade de programação da Rede Globo, enquanto grande mídia nacional, revela que o projeto de nação que ela tem para o Brasil é apenas o de ser um grande produtor de alimentos, pois o Globo Rural é o único programa da emissora em que conceitos técnicos e filosóficos circulam, quase todos os demais ou alienam ou distorcem a verdade.     

Outra questão grave do atual modelo de mídia televisiva do Brasil é que ele é, exatamente, o mesmo que foi instituído e vigorou durante a ditadura militar instaurada a partir de 1964. A Rede Globo foi fundada em 1965, um ano após o golpe militar, em plena ditadura e em conseqüência do golpe. Todas as demais também foram fundadas durante a ditadura militar que vigorou até 1988. Ora, será que existe alguma dúvida que, se o Brasil se pretende um país democrático de fato, ele não pode conviver com um modelo de mídia fundado por uma ditadura?                           

Como se trata de um monopólio de fato, falar da TV Brasileira nos últimos 55 anos, é falar da Rede Globo. Até se diz que “se não está na Globo, não está na TV brasileira”. Então, não é necessário acabar com a Rede Globo, até porque ninguém quer deixar de ver o Globo Rural.  O ideal é dividir o monopólio que a Globo detém entre outras três grandes emissoras, que sejam representativas dos diversos setores da sociedade brasileira, inclusive os setores progressistas, e não apenas os conservadores como ocorre desde a ditadura. Assim, teríamos um sistema de mídia televisiva representativo e composto por quatro grandes TVs, a exemplo do que ocorre nos EUA, e assim seria muito mais difícil para apenas uma emissora conduzir o país à situação em que o Brasil se encontra atualmente, como fez a Rede Globo.

E isto se faz através da reforma dos meios de comunicação, que Lula não fez quando foi presidente da República. A pergunta é a seguinte: Se Lula for eleito novamente, ele vai fazer a reforma dos meios de comunicação? Porque, do contrário, depois de 8 anos, a Globo repete tudo de novo e o Brasil não sai do lugar.  

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

RISCO DE DESMORONAMENTO DE PILHA DE REJEITO EM SANTA BÁRBARA ESCANCARA COMO TUDO PIOROU NA MINERAÇÃO DO OURO EM MINAS GERAIS


 (foto: Mateus Parreiras/EM/D.A.Press)

O ouro descoberto a partir do final do sec XVII definiu, absolutamente, tudo em Minas Gerais, desde as fronteiras do estado, passando pelos modos de ser e de viver, até a culinária, a arte e tudo mais. E naqueles idos, podíamos minerar o ouro. Por isto, somos chamados de mineiros, porque minerávamos o ouro.

O modelo de minerário implantado por Portugal era, extremamente, democrático e permitia o acesso à mineração a quem se interessasse por ela. E foram centenas de milhares os que se interessaram pela mineração do ouro e receberam suas concessões para minerá-lo, situação muito diferente da vivenciada, atualmente, em Minas Gerais.

Hoje em Minas Gerais, apesar de toda crise econômica, desemprego e de o grama do ouro estar cotado a R$320, 00, não se vê mineiro nenhum a minerar o ouro. Muito pelo contrário, se o mineiro se dirige ao aluvião e, depois de um dia inteiro de trabalho artesanal, apura dele dois gramas de ouro, ele é imediatamente preso pela polícia. A mineração tradicional do ouro foi criminalizada e, atualmente, em Minas Gerais apenas as grandes mineradoras, muitas delas estrangeiras, são, de fato, autorizadas a minerar o ouro.

Exemplo disto é a mineradora Anglogold, localizada no município de Santa Bárbara. A Anglogold é a companhia mineradora mais antiga em serviço em Minas Gerais. Diferentemente de nós, mineiros, ela está autorizada a minerar ouro em Minas há quase 200 anos. Praticamente, todo o ouro extraído pelo Anglogold é remetido ao estrangeiro, sem o recolhimento de royalties ou qualquer imposto sobre a mineração.

Antigamente, quando éramos colônia de Portugal e vivíamos sob o jugo português, o mineiro recolhia o quinto e era autorizado a minerar o ouro. Hoje que somos livres e independentes,  o mineiro é, na prática, proibido de minerar e quem é autorizado a fazê-lo remete todo ouro para o exterior, sem pagar nada em troca.

E como a situação já não fosse ruim, além da proibição de minerar e da evasão da riqueza aurífera de Minas, agora o mineiro também tem que conviver com o medo da mineração do ouro, tal qual já vinha ocorrendo com a mineração do ferro, depois dos rompimentos das barragens de rejeito de Mariana e Brumadinho, além de vários outros episódios de instabilidade de barragens, Minas afora.

Agora, uma imensa pilha de 80 metros de altura de rejeitos da mineração do ouro da Mina Córrego do Sítio I, localizada em Santa Bárbara e de propriedade da Anglogold, corre considerável risco de desmoronar. Trata-se de um marco muito negativo no já sofrido contexto minerário de Minas Gerais, pois evidencia que a situação de medo que já envolvia a mineração do ferro, agora, também alcança a mineração do ouro, tornando-se ainda mais sistêmica.  Sinal de que todo o atual sistema minerário vigente em Minas Gerais precisa ser revisto, não apenas para permitir que o mineiro volte a minerar, mas também para que o medo deixe de existir como instrumento de uma política de mineração excludente e destruidora. Mineração não pode ser sinônimo de medo em Minas Gerais. E o mineiro, que não minera, vira caipira!  

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Contratação de Médicos X Empreiteiros = Caos no Atendimento do Hospital Margarida

 

Recentemente, verificou-se o caos no atendimento do Hospital Margarida. Muitos pacientes utilizaram das redes sociais para reclamar da imensa demora no atendimento. Circulou foto de paciente deitado sobre o gramado do hospital, aguardando atendimento. E a causa é falta de contratação de médicos.

Infelizmente, a entidade que administra o hospital, a Associação São Vicente de Paulo de João Monlevade, instituída pelo ex-prefeito Carlos Moreira e que não pode ser confundida com ASVP dos Padres Lazaristas, pretere a contratação de médicos em proveito, por exemplo, da contratação de empreiteiras, sobretudo, as que prestam o serviço de construção civil.  Desde que a entidade filantrópica passou a administrar a casa de saúde, jamais se deixou de construir ou reformar no hospital. Há alas do Margarida que já foram reformadas 2 ou 3 vezes. Rescendente, a Câmara fez um repasse ilegal de recurso público para o hospital que já foi logo empenhando-o para a construção de mais uma ala. O Conselho Municipal de Saúde apontou a ilegalidade e o hospital teve que devolver o dinheiro. O que adianta construir alas inteiras, revestir o piso do hospital de mármore, etc, se aquelas instalações não são preenchidas de médicos para atender a população? E as empreiteiras contratadas, advinha!  São as mesmas que faturaram muito mais de 22 milhões de reais na tentativa fracassada e vergonhosa de transformar o antigo terminal rodoviário num hospital de 100 leitos. E como ocorrido lá, também deixam muitas vezes de entregar o serviço. Existe, por exemplo, um telhado no Bloco Cirúrgico que foi substituído pela empreiteira e que, durante a choca, verte para o interior da instalação grande quantidade de água.          

O povo de João Monlevade tem que decidir se o Hospital Margarida vai seguir nas mãos de uma entidade política que o utiliza para enriquecer empreiteiros que tanto prejuízo já causaram ao setor da saúde pública do Município (hospital Santa Madalena), ou se vai transferir sua administração para uma entidade especialista em gestão hospitalar que realmente atenda a população. A ASVP de Carlos Moreira está mais para especialista em obra de construção civil. É uma pena que o prefeito, que é medico do hospital, não realizou a prometida auditoria no HM. A auditoria emperrou em Fabrício que é herdeiro do moreirismo e já é candidato a prefeito em 2024. Que vergonha. Laércio!     


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Paulo Guedes & Sérgio Moro: Vivo perplexo no Brasil


 Fotos: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/quinta-coluna-paulo-guedes-moro/

Acordo cedo e, antes de pular da cama, busco organizar meu dia. Penso nas tarefas que tenho para executar, nas contas para pagar, etc. Vejo como tudo dobrou ou triplicou de preço nos últimos três anos no Brasil e, por conseqüência, não me pode fugir à mente a imagem daquela cara horrenda do Paulo Guedes, atual ministro da economia no Brasil.  Então, antes das seis horas da manhã, já estou perplexo. Paulo Guedes implementou no Brasil uma política econômica de fome, profundo desemprego, inflação galopante e disparada do dólar, o que faz dele o pior ministro da fazenda desde a superinflação do regime militar e o cara não cai. E não é só isto. Paulo Guedes posicionou sua fortuna em dólar num paraíso fiscal no estrangeiro e a cada da vez que a moeda estadunidense encarece, empobrecendo a nação, Paulo Guedes fica mais rico. A Política econômica levada a cabo por Paulo Guedes triplicou a fortuna do próprio Paulo Guedes no estrangeiro nos últimos três anos e o cara ainda se justificou, alegando que aquela dinheirama toda foi declarada ao fisco. Ora, pode até ser declarada, mas é imoral. O ministro da fazenda não pode adotar uma política econômica de disparada do dólar, empobrecendo o Brasil, e ficar rico com isto. Mas, ninguém desmascara Paulo Guedes. Aliás, qualquer o ministro da fazenda deveria ser impedido, legalmente, de manter dinheiro em paraíso fiscal no exterior, para que ele também se submetesse às graves conseqüências do fracasso da política econômica que implementa.

Outra figura dantesca do cenário político brasileiro que não causa menor perplexidade é o ex-juiz Sérgio Moro. A versão contemporânea de Joaquim Silvério do Reis rasgou a Constituição, violou o devido processo legal, mentiu, encanou, dissimulou, quebrou as maiores empresas do país, assumiu cargo de ministro no governo de quem ele mandou prender o maior adversário na disputa eleitoral, colocou o Brasil à beira do abismo em que ele se encontra e o cara ainda se apresenta como pré-candidato à presidência da República como se nada tivesse acontecido.  Como não poderia deixar de ser, agora se revela que ele também ganhou muito dinheiro para fazê-lo.    

Assim, meu dia se inicia em meio a uma dupla perplexidade e tendo não lembrar que Bolsonaro é presidente para que ela não triplique, como ocorreu com a fortuna de Paulo Guedes ou os preços das coisas. É por isso que volto a repetir, Lampião faz muita falta ao Brasil.         


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Represa da Arcelormittal não alertou comunidade sobre iminência de inundação


 

Em janeiro de 2022, os bairros Centro Industrial e Santa Cruz sofreram alagamento devido ao pico de cheia do Rio Piracicaba. Novamente, a enchente atingiu o interior das casas dos bairros, desalojando seus moradores e causando perdas consideráveis.

A pouca distância dos pontos de alagamento, rio acima, encontra-se localizada a Represa Hidrelétrica do Jacuí (foto), de propriedade da Arcelormittal, cuja instalação interfere diretamente no regime de cheias do rio a jusante, que é justamente onde ocorrem os alagamentos .  O estranho é que, muito embora a Arcelormittal detenha conhecimento exato do volume d’água que escoa pelo vertedouro da hidrelétrica, em determinado momento, ou da abertura e fechamento das comportas da represa, ela nada informa a comunidade a respeito da situação. A Arcelormittal, simplesmente, abre as comportas da represa ou assiste ao crescimento do volume d’água, sem alertar a comunidade sobre a iminência da inundação.     

É preciso que haja um manejo transparente na Hidrelétrica do Jacuí, visando o controle de inundações no Município. É preciso também que a Arcelormittal passe a informar a população ribeirinha, em tempo real, sobre o volume d´água que verte pela represa na situação de pico de cheia do rio, emitindo o devido alerta ao menor sinal de risco de inundação.     

domingo, 26 de dezembro de 2021

Como o Galo forte vingador superou o insulto infame que fundou Minas Gerais

O Cruzeiro foi fundado pela colônia italiana de Belo Horizonte. O time mineiro até chegou a se chamar Palestra Itália, tendo de mudar de nome décadas mais tarde, quando o Brasil declarou guerra àquele país durante a Segunda Grande Guerra. Nada contra os italianos. O Brasil é o país onde o mundo inteiro de encontrou. Antes dos italianos, por exemplo, o molho do macarrão em Minas Gerais era preparado a partir do refogado de cebola, alho e urucum, sendo um prato mais cotidiano. Somente a partir da imigração italiana que se passou a encontrar em Minas o macarrão à bolonhesa, feito com molho de tomates, que é um prato para ocasiões mais especiais. Contudo, não foram os italianos que fundaram Minas Gerais, eles chegaram muito depois. A seguir, contarei como a escolha do Galo para ser o mascote do glorioso Clube Atlético Mineiro superou o insulto a partir do qual Minas Gerais foi fundada. 
Foram os bandeirantes paulistas que, a partir do fim do sec.XVII, descobriram o ouro, dentro de sua própria capitania, a de São Paulo, que era imensa, estendendo-se de Santa Catarina até o Mato Grosso. Muito diferente das ilustrações dos livros escolares de história, os bandeirantes não eram aqueles homens brancos, barbudos, vestidos de calça, gibão de couro e chapéus de abas largas. Na verdade, eles eram metade portugueses, metade índios. Por isso, andavam com pouca roupa, descalços e falavam o tupi. Eles também eram muito possessivos e gananciosos. Depois de descobrirem as Minas de Ouro de Mariana, Ouro Preto, Sabará, Caeté, S. J. Del Rei, etc, os bandeirantes resolveram monopolizá-las apenas para si, o que gerou imensa insatisfação do crescente afluxo de pessoas que chegavam às regiões auríferas, vindas da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de Portugal, atraídas pela notícia do descobrimento de tão fabulosas jazidas. O clima ficou tenso, de um lado os bandeirantes paulistas, do outro, os forasteiros. Até que num fatídico dia, no Morro Vermelho, em Caeté, um bandeirante paulista chamou de “emboaba” um daqueles forasteiros, o que principiou um tiroteio que se multiplicou por todas as regiões auríferas, dando início à Guerra dos Emboabas. Pouco tempo depois, os bandeirantes paulistas perderam a Guerra dos Emboabas e foram expulsos das Minas de Ouro. Vencedores, os Emboabas desmembraram as Minas de Ouro da Capitania de São Paulo e fundaram a Capitania de Minas Gerais. 
Mas, o que essa história toda tem a ver como o Galo, o mascote do Clube Atlético Mineiro? Veja que Minas Gerais foi fundada em conseqüência da Guerra dos Emboabas, que, por sua vez, teve início em função de uma ofensa: “emboaba”.“Emboaba” é termo do tupi que designa uma ave pernalta, desengonçada e mal emplumada. Os bandeirantes se referiam, pejorativamente, aos forasteiros atraídos pela notícia da descoberta do ouro como emboabas porque eles calçavam longas botas cujos canos se elevavam até pouco abaixo da linha da cintura. É que as regiões das Minas de Ouro eram habitadas pelo temido jararacuçu, que do tupi significa “gigante que envenena a quem agarra”. É a cobra que mais quantidade de veneno injeta em suas prezas e a única que pica acima do joelho. Geralmente, os acidentes com cobras venenosas do Brasil ocorrem da altura do joelho para baixo. O jaracuçu, que pode chegar a mais de 3 metros de comprimento, é o único que pica acima do joelho, podendo seu bote alcançar a altura do peito de uma pessoa de média estatura. Como os bandeirantes eram metade índios, eles não se preocupavam com as cobras porque o índio as percebe muito antes delas estarem ao alcance para um acidente. Índio não pisa em cobra! Situação muito diversa da dos emboabas, que não possuíam a leitura do índio sobre o ambiente e, portanto, se viam obrigados a utilizar as longas botas a fim de prevenir a picada mortal do jaracuçu. 
Assim, 200 anos depois da Guerra dos Emboabas, quando estudantes belorizontinos fundaram o Clube Atlético Mineiro em 1908, foi preciso escolher para o time um mascote que superasse, definitivamente, aquela imagem de ave pernalta, desengonçada e mal emplumada que passara a atormentar o imaginário do mineiro desde tempos áureos . O escolhido não poderia ser outro senão ser o Galo forte vingador, galantemente, emplumado e dotado de bico voraz e esporas capazes de fulminar com pontaria o adversário, como fizeram os disparos de bacamarte no Morro Vermelho. E depois de fundado o Galo, nunca mais se ouviu falar daquela emboaba pernalta, pouco emplumada e desengonçada. Muito pelo contrário, em Minas Gerais, emboaba se tornou sinônimo de herói de guerra e a única ave sobre a qual se ouve falar é o Galo! Se foi intencional, não sei. Só sei que foi assim.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Botão de Prata Extraída por Monlevade no incêndio do Museu Nacional

Enquanto atravessava o Atlântico, em 1817,  rumo ao Brasil, o minerálogo e metalurgista francês João Antônio de Monlevade (retrato), certamente, mal poderia imaginar que, 10 anos mais tarde, estabeleceria em Minas Gerais aquela que seria a maior e mais importante Fábrica de Ferro a funcionar durante o Brasil Império e além.

O objetivo inicial da viagem de Monlevade ao Brasil era o de estudar suas jazidas minerais, mensurando-as a fim de responder, sobretudo, à grande dúvida da época: o ouro de Minas Gerais havia se esgotado ou não? E a resposta de Monlevade para aquele dilema foi um sonoro “não”. Havia ainda muito ouro a ser extraído, contudo seria necessário o emprego de novas técnicas de mineração. Para se ter uma ideia, adotando as novas técnicas de mineração difundidas por Monlevade e empregando os artefatos de ferro manufaturados em sua fábrica, apenas o Congo Soco produziria, de 1826 a 1856, 27.887 quilos de ouro puro, fazendo dele a mina que mais produziu ouro na história da humanidade.

Mas, pouco antes de assumir sua bem sucedida carreira metalúrgica no Brasil e sempre imbuído do dever de buscar proveito econômico para as jazidas minerais de Minas, Monlevade foi incumbido pelo governo da província de uma difícil empreitada, cujo sucesso lhe somaria como mais uma credencial para torná-lo a maior autoridade metalúrgica de Minas Gerais durante o sec. XIX e revelaria sua face de alquimista.

Enquanto ainda vivia em Caeté nos idos de 1825, experimentando imensa dificuldade em fundir o ferro no alto-forno devido à ausência de matas para o fabrico do carvão em escala, Monlevade foi incumbido pelo governador da província, o Visconde de Caeté, de estudar a viabilidade econômica da Galena do Abaeté, a única mina de chumbo e prata conhecida em Minas Gerais. Monlevade, então se dirigiu para o Abaeté, onde elaborou detalhado relatório mineralógico da galena e um plano para explorá-la . Em pouco tempo Monlevade extraiu da galena pelo processo químico 10 toneladas de chumbo em barras e as remeteu para Ouro Preto a 500 quilômetros de distância, com o auxílio de uma tropa de 200 muares.  Em Ouro Preto, munido de aparelhos, Monlevade submeteu parte do chumbo apurado no Abaeté a um processo de copelação, através do qual, como se ele fosse um verdadeiro alquimista, apurou um botão de finíssima prata que foi remetida como amostra para o Rio de Janeiro, aos cuidados de ninguém menos do que José Bonifácio de Andrada e Silva. O botão de prata extraída por Monlevade do chumbo do Abaeté era parte integrante do acervo de mineralogia do Museu Nacional, incendiado em 2 de setembro de 2018 no Rio de Janeiro.           

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ex-provedor do Hospital Margarida tem sítio penhorado pela Justiça



O ex-provedor do Hospital Margarida e ex-presidente da Associação São Vicente de Paulo de João Monlevade por dois mandatos consecutivos, José Roberto Fernandes, teve um sítio penhorado pela Justiça, na semana passada.   

Alem de condenado a se abster de interferir na Clínica Urológica do Hospital Margarida, José Roberto Fernandes foi condenado pela Justiça a indenizar o médico Getúlio Garcia, que é meu pai, por dano moral praticado enquanto exerceu o cargo de provedor do HM. Já em processo de execução para pagamento da indenização judicial devida, apesar de intimado a fazê-lo, José Roberto Fernandes não quitou a dívida. Assim, mediante apresentação da respectiva certidão de propriedade expedida pelo Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de São Domingos do Prata, o Juiz do Jesp Cível da Comarca de João Monlevade, Paulo José Rezende Borges, determinou a penhora do bem como garantia do pagamento da indenização.

O curioso é que apesar de o cargo de provedor do Hospital Margarida não ser remunerado, o terreno de 7 alqueires, situado na localidade denominada Colônia Guidoval, município de S. D do Prata, foi adquirido pelo ex-provedor José Roberto Fernandes em 21 de maio de 2020 , pouco tempo depois dele deixar o cargo no hospital, ocasião em que ele pagou pelo imóvel em dinheiro vivo a quantia de 650.000,00 (seiscentos e cinqüenta mil reais), isto é,  mais de meio milhão de reais em espécie.

O sítio do provedor agora aguarda pela expedição do auto de penhora e pode ser leiloado. É o que eu chamo de mistura de justiça dos homens com justiça divina! É verdade, quem ri por último, ri melhor!!!         

domingo, 28 de novembro de 2021

Dois Reis na História Siderúrgica de João Monlevade

A localidade que viria a originar o Município de João Monlevade vivenciou as três fases históricas da siderurgia nacional. O início de tudo se deu a partir de 1828, com a instalação da Fábrica de Ferro do minerálogo frances João Antônio de Monlevade, que empregava pesados marteletes movidos por rodas d´água para forjar as maiores peças de ferro já produzidas no Brasil, até então, algumas delas com o peso de um carro. Posteriormente, a partir de 1891, instalou-se por meio da Companhia Nacional de Forjas e Estaleiros a Fábrica de Ferro de Francisco Monlevade, neto do patrono do Município, que empregava a tecnologia da máquina a vapor no processo produtivo de uma diversa gama de artefatos de ferro para a mineração, com destaque para o Martelo-Vapor de 1,5 ton, capaz de forjar peças de ferro com o dobro de seu peso. E a partir de 1935 houve a instalação da moderníssima siderúrgica, a primeira usina integrada da América Latina, a Companhia Siderúrgica Belgo Mineira (CSBM), quando se iniciou a construção da Vila Operária planejada que daria origem ao Município e que viveria seu auge de desenvolvimento durante as décadas de 50, 60 e 70, quando a localidade de João Monlevade experimentou, em função da siderurgia, o estado de bem estar social pleno. Hoje, a Usina Monlevade pertence ao grupo Arcelormittal, que anunciou recentemente, o investimento de mais de 2,5 bilhões de reais em sua planta local, com vistas a duplicar sua capacidade produtiva para 2 milhões e 200 mil toneladas de aço por ano. 
Monlevade produz ferro e derivados desde o Primeiro Império Brasileiro. São quase 200 anos de história siderúrgica que somente se tornaram realidade graças a perspicácia de dois grandes monarcas, Dom João VI, Rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e Alberto I, rei da Bélgica. 
 
 
A influência de Dom João VI (imagem) na história de João Monlevade foi direta e indiretamente. Indireta, porque antes da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, o ingresso de estrangeiros em Minas Gerais era, praticamente, proibido. A partir da transferência da corte joanina, ocorreu a abertura dos portos do Brasil e a admissão de uma série de missões estrangeiras compostas por artistas, naturalistas e exploradores científicos. Assim, não fosse a presença do rei Dom João VI no Brasil e o novo contexto político por ele criado, dificilmente o frances João Antonio de Monlevade teria encontrado, enquanto estrangeiro, contexto favorável sido para ingressar em Minas. Já a influencia direta de Dom João na presença de Monlevade em Minas pode ser notada no crucial fato de que o segundo foi, pessoalmente, autorizado a ingressar em Minas pelo rei. Bastava que o rei dissesse não e Monlevade teria que dar meia volta e retornar para França. Mas, felizmente, não foi o que aconteceu. Dom João consentiu a entrada de Monlevade em Minas o que constituiu condição fundamental para que, dez anos mais tarde, ele fundasse sua Fábrica de Ferro que daria origem a tudo. É preciso compreender que os estabelecimentos metalúrgicos mantidos pela Família Monlevade ao longo do sec. XIX foram os mais importantes do Brasil Império, fama que décadas mais tarde concorreria para evidenciar a vocação siderúrgica local, a ponto de influir, decisivamente, junto ao belgas na escolha da localidade para a instalação da CSBM. Em outras palavras, não fosse a bem sucedida experiência metalúrgica anterior dos Monlevade na localidade homônima, os belgas poderiam ter escolhido outro local para instalação da CSBM. Aliás, é muito provável que o belga Gastão Barbasson tenha chegado à escolha da localidade de Monlevade para instalação da CSBM a partir dos inúmeros relatórios técnicos confeccionados por João Monlevade e remetidos ao arquivo da Escola Politécnica de Paris, durante o sec. XIX.
 
 
 
O outro rei importantíssimo para a história siderúrgica de João Monlevade foi Alberto I da Bélgica (foto). O Rei Alberto foi um estrategista de visão extraordinária. Muito antes de Hitler invadir a Polônia, em 1939, o Rei Alberto já havia compreendido que o desfecho da Primeira Grande Guerra não seria suficiente para garantir a paz mundial e que, em breve, um conflito ainda mais sangrento teria início. Em 1920, o Rei Alberto visitou Belo Horizonte para articular a fundação de uma siderúrgica de guerra no Brasil. Em 1921 foi fundada a CSBM de Sabará. Em 1935 foi fundada da CSBM de João Monlevade. O objetivo imediato do rei belga, certamente, não era levar o desenvolvimento para o sertão mineiro, mas sim o de estabelecer uma usina siderúrgica integrada de grande porte, capaz de fornecer aço para o esforço de guerra aliado na Segunda Guerra Mundial. O primeiro aço de João Monlevade não foi produzido para suprir o mercado interno brasileiro, mas sim para o esforço de guerra aliado na Segunda Grande Guerra. Dos navios afundados por submarinos alemães na costa brasileira durante o conflito é muito possível que exista algum que transportava para a Inglaterra ou para os EUA aço fabricado em Monlevade. Getúlio Vargas instalou também em 1935 o decisivo ramal da ferrovia Central do Brasil até Monlevade, de onde o aço era enviado, por trem, até o porto do Rio de Janeiro e de lá era despachado para o esforço de guerra aliado. É por isso que a Matriz São José Operário tem sua nave em formado de “V”, que é em referencia à vitória aliada na Segunda Grande Guerra, da qual Monlevade fez parte enviando insumos pesados para a fabricação de armas, blindados, veículos, suprimentos, etc. O início de sua construção é de 1948, não coincidentemente, o ano do encerramento do conflito, com a derrota dos nazistas. E o rei Alberto já havia previsto isso tudo em 1920. Significa dizer que não fosse a visão aguçada do Rei Alberto I, dificilmente, teria havido Belgo Mineira para dar continuidade à trajetória siderúrgica, aqui iniciada por João Monlevade, há quase 200 anos. 
 
Nota curiosa – O Rei Alberto I da Bélgica foi o primeiro monarca a visitar o Brasil República. Ele esteve no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Em BH, o rei ficou hospedado no Palácio da Liberdade. Para receber sua majestade a sede do governo mineiro teve todo seu mobiliário renovado para móveis de fabricação francesa, que ainda hoje guarnecem seus cômodos, tal qual como na visita do rei. Para agradecer a acolhida, o Rei Alberto presenteou o Palácio da Liberdade com um casal de cisnes negros. Ainda hoje o Palácio da Liberdade conserva a tradição de criar cisnes negros num lago de seus jardins.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Monlevade 1828: Uma Fábrica de Ferro movia a Água

Além do minério de ferro quase puro e da grande quantidade de mata para o fabrico do carvão, os recursos hídricos locais foram, igualmente, essenciais para o funcionamento da Fábrica de Ferro Monlevade, instalada a partir de 1828. Dos martelos de forja aos ventiladores, todo o equipamento era movido por diferentes rodas d’água. João Antônio de Monlevade também era exímio mecânico e, newtoniano, sempre colocava a gravidade para trabalhar a seu favor. Seu nome também foi muito associado à outra roda d’água, o Engenho Mineiro de Pilôes (foto abaixo), aparato mecânico, muito difundido durante o sec. XIX e empregado na trituração do quartzito aurífero na Minas de Ouro, cujas cabeças dos trituradores consistiam em blocos de 80 quilos de ferro forjado, que eram produzidos em escala industrial em Monlevade.


O metalúrgico João Monlevade desviou o curso de dois ribeirões para empregar suas águas como força motriz de diversos equipamentos. O primeiro foi o ribeirão que nasce nas imediações do Campo de Aviação, desce pelas matas do Embaúba e do Hospital Margarida, até o pátio do Colégio Parreiras, onde foi canalizado. Na altura da Rua Imbé, Monlevade desviou o curso desse ribeirão e o fez verter água sobre a pedreira que existe nos fundos do Solar Monlevade, formando para “deleite da vista” uma cascata artificial de 180 pés de altura. Da cascata, a água passava pelo Solar Monlevade e no terreiro dava impulso a um Engenho de Pilões, utilizado para sacar ferro das borras dos fornos; moinho de fubá e ralador de mandioca. Até recentemente, a roda d’água do mencionado Engenho de Pilões se encontrava íntegra no Museu. Contudo, depois que a Arcelormittal retirou o telhado sobre ela, a mesma ficou sujeita às ações das intempéries e ruiu, não sendo restaurada (foto abaixo). 
 
O segundo, muito mais caudaloso, o Ribeirão Carneirinhos, foi desviado através de um bicame para dentro da fábrica, onde movia 3 martelos de forja, de 1200, de 225 e de 75 quilos, os ventiladores, os laminadores e um engenho de serrar madeira. Tudo impulsionado pela água, com destaque para os ventiladores. Para se fundir ou forjar o ferro é necessário o sopro dentro dos fornos para se alcançar altas temperaturas. Monlevade tinha seis fornos de fundir ferro, de 80 quilos de capacidade cada um, e três fornos de forja para caldeamento do ferro a ser trabalhado, operando, diariamente. O sopro de cada forno era conseguido por meio de trompas hidráulicas, caixas de madeira (braúna) calafetadas e hermeticamente fechadas, que, uma vez enchidas de água, expulsavam o ar, soprando-o para dentro dos diversos fornos. Elas eram de efeito duplo e ao se esvaziarem também sopravam o ar para dentro dos fornos. Possuíam ainda mecanismo de segurança que impedia que a água fosse soprada para dentro dos fornos. 
A Fábrica de Ferro Monlevade era, totalmente, dependente da água, sem, contudo, lançar poluente nos recursos hídricos. O consumo de água não era pouco no estabelecimento metalúrgico, mas depois de cumprir seu importante papel na história local, a água dos ribeirões seguia de volta para o Rio Piracicaba, sem qualquer contaminante. Muito pelo contrário, a água para ser utilizada nas trompas dos sopros nos fornos, por exemplo, deveria ser limpa e decantada para não obstruí-las. Apesar do processo produtivo e de abrigar 150 escravos e outros 50 colaboradores direitos, a propriedade não emitia nem mesmo esgoto sanitário como Monlevade fez questão de registrar: “em roda destes edifícios o terreno está sempre ocupado com plantações úteis e livre de emanações pútridas tão nocivas à saúde”.